Um grupo de deputados do Parlamento Europeu foi esta quinta impedido de entrar na Faixa de Gaza pelas autoridades israelitas, num gesto considerado «hipócrita e revoltante» pela eurodeputada Marisa Matias, que integra a delegação europeia.

«Nós fizemos um pedido para visitar Gaza. A delegação do nosso grupo parlamentar, preencheu toda a documentação. Houve conversas com os serviços competentes e tivemos indicação de que oito de nós, de um total de 13, teriam acesso a Gaza pelas 06:30 da manhã de hoje», disse à Lusa a eurodeputada do Bloco de Esquerda Marisa Matias, que se encontra agora em Jerusalém.

De acordo com a parlamentar, a delegação composta por 13 eurodeputados do Grupo da Esquerda Unitária, acabou por receber, na noite de quarta-feira, a indicação de que ¿seria muito difícil¿ entrar em Gaza, tendo as autoridades israelitas justificado que só a ajuda humanitária é autorizada a passar.

«Não deixa de ser revoltante e hipócrita porque a ajuda humanitária só é necessária porque houve bombardeamentos que destruíram a Faixa de Gaza como nunca antes em nenhum bombardeamento. Além do mais, nós, sendo porta-vozes de cidadãos e cidadãs temos condições para fazermos um levantamento no terreno e poderíamos fazer chegar aos serviços europeus e às instituições europeias informações sobre o reforço dessa mesma ajuda humanitária e, por isso, é muito revoltante», disse.

Marisa Matias acrescentou que «há muito tempo» que Israel não deixa entrar em Gaza deputados do Parlamento Europeu, que são assim obrigados a entrar no território pelo Egito, Os eurodeputados ficaram «surpreendidos» com a autorização inicial do governo israelita que, segundo a eurodeputada portuguesa, poderia estar a dar um sinal de abertura à comunidade internacional, o que acabou por não acontecer.

Marisa Matias sublinha ainda que, após os primeiros contactos na região, todos os dados mostram que o número de destruição de casas, hospitais, escolas, saneamento básico, rede de distribuição de água e de energia elétrica durante os 53 dias de bombardeamentos, a Faixa de Gaza «recuou o equivalente a 30 anos, em termos de infraestruturas».

«Até neste aspeto a resposta do governo israelita é hipócrita porque todo o dinheiro dos dadores internacionais e de todos os esforços feitos pela União Europeia e pelas Nações Unidas na construção de Gaza foram deitados abaixo neste bombardeamento, recuando 30 anos em 53 dias», acusa Marisa Matias recordando igualmente que a ofensiva de Israel fez mais de dois mil mortos e cerca de dez mil feridos.

Apesar de terem sido impedidos de entrar em Gaza, os eurodeputados do Grupo da Esquerda Unitária, já se reuniram com várias organizações israelitas e palestinianas, nomeadamente, com os Combatentes pela Paz, uma organização de soldados israelitas que se recusam a combater nos territórios palestinianos e ainda com uma associação que junta ex-militares de Israel e antigos combatentes palestinianos.

Os parlamentares europeus já se encontraram igualmente com responsáveis por associações de pais que juntam famílias israelitas e palestinianas e uma associação judaica pela paz, além da visita a colonatos e aos muros que dividem a cidade de Jerusalém.

Até ao final da deslocação, que se vai prolongar até domingo, a delegação do Parlamento Europeu vai visitar um hospital em Jerusalém onde estão internadas muitas crianças palestinianas que sofreram gravemente com os bombardeamentos; e deve reunir-se nos próximos dias com o diretor das Nações Unidas, com autoridades religiosas, com os membros do Conselho Legislativo Palestiniano, em Ramalha, e com deputados do Parlamento de Israel em Telavive, como reporta a Lusa.