O original «Maria Madalena em Êxtase», do pintor italiano Caravaggio, foi descoberto numa coleção privada europeia. Foi Mina Gregori, a maior estudiosa de Caravaggio, que anunciou a descoberta.

A pintura de 1606 foi reproduzida pelo menos oito vezes, mas Gregori afirmou que esta é a original. «É magnífico. Soube-o imediatamente que a vi», disse Gregori ao «The Telegraph». «Tive uma reação imediata e instintiva», revelou.

Gregori, que é considerada a maior especialista do mundo sobre o artista, não quis revelar o país onde a pintura está localizada, dizendo que os proprietários não querem publicidade, mas confirmou que, quando viu pela primeira vez os 100 por 90 centímetros de óleo na tela, não teve dúvidas.

«Colocaram-na no chão, baixei-me, coloquei-me de joelhos e quando eu vi as mãos disse: sim, é ela. Finalmente», relata a especialista.

Gregori explicou que a sua primeira impressão foi confirmada quando estudou de perto as cores e a luz nas mãos e no rosto, bem como as dobras da roupa. Apoiou-se também noutras pistas importantes: uma cera do Vaticano estampada na tela, que só era utilizada no século 17, e uma nota escrita à mão, na parte de trás, que dizia «a reclinada Madalena de Caravaggio está em Chiaia para ser entregue ao Cardeal Borghese».

«Não sei se a vão exibir», disse Gregori. «Acho que vão mantê-la em casa e apreciá-la. Afinal, se estiver guardada num banco qualquer, ninguém irá apreciá-la».  

Gregori chamou-a de «adição maravilhosa» para o mundo da arte. A estudiosa de 80 anos disse que ver o original com os seus próprios olhos foi um dos destaques da carreira: «Acho que, depois de todos esses anos, merecia».

Uma história misteriosa 
 
A descoberta acrescenta intriga a uma história misteriosa de arte já com alguns séculos. Diz-se que a pintura foi feita nos meses seguintes a Caravaggio ter saído de Roma depois da morte do seu adversário, em 1606, enquanto estava escondido nas casas dos seus protetores, a poderosa família nobre Colonna.

Em 1994, foi descoberta outra pista num arquivo secreto do Vaticano: uma carta do bispo Caserta e de um mensageiro do Vaticano para o Reino de Nápoles, dirigida ao Cardeal Scipione Borghese, informando-o da morte de Caravaggio e de que o barco em que viajava levava três pinturas, incluindo dois San Giovanni e Madalena.

Acredita-se que a família Colonna, que morava no bairro Chiaia, mencionada na nota existente na parte de trás da pintura, terá guardado as obras de arte. Pensa-se que a pintura San Giovanni chegou ao Cardinale Borghese, mas os historiadores acreditam que o original é o que se encontra na Galleria Borghese, em Roma.

Madalena passou, provavelmente, vários anos em Nápoles, onde o pintor flamengo Louis Finson fez uma cópia datada com a sua assinatura, agora em exibição num museu em Marselha. Muitas cópias foram feitas a partir dele. Pensa-se que a pintura terá viajado até Roma e acabou, misteriosamente, numa coleção particular.

A pintura refere-se à lenda na qual Maria Madalena, vivendo como uma eremita numa caverna no sul da França, perto de Aix-en-Provence, depois da morte de Cristo, ouvia sete vezes por dia por «as deliciosas harmonias dos coros celestiais».

A pintura mostra Madalena reclinada contra um fundo escuro, as mãos contraídas, a cabeça atirada para trás e os olhos cheios de lágrimas. Os estudiosos têm sugerido que a sua posição reclinada e o ombro destapado fazem um paralelo entre um momento de êxtase e um orgasmo sexual.