À grande e à francesa! É o que se espera da visita de 24 horas de Donald Trump à capital francesa, a convite do também recém-eleito presidente francês, Emmanuel Macron: o mesmo que há meses até conseguiu protagonismo no palco mundial, encabeçando o movimento de censura aos Estados Unidos pela intenção de rasgar o Acordo de Paris, sobre as alterações climáticas.

Agora, Emmanuel Macron, o mais jovem presidente francês de sempre, voltou a surpreender com o arrojo dos seus 39 anos: convidou Donald Trump para as comemorações do dia nacional de França, o 14 de julho, que assinala a tomada da prisão da Bastilha, em 1789, o facto historicamente assumido como o início da Revolução Francesa.

E talvez para que Trump não se sinta incomodado com uma data histórica tão antiga, próxima da própria independência dos Estados Unidos, será também assinalado o centenário da entrada dos norte-americanos como país associado na I Guerra Mundial, de 1914-18, um ano antes da capitulação da Alemanha e do império Austro-Húngaro.

Pompa e circunstância esperam Donald Trump, em Paris. Com alguns dos habituais protestos de rua e um tour turístico, com o qual Macron pretende cativar o presidente norte-americano. Que chegou na manhã desta quinta-feira e se fez anunciar à sua maneira: através da rede Twitter.

Tour na cidade do amor

Além da parada militar nos Campos Elísios, na sexta-feira, Macron levará Trump a visitar o túmulo de Napoleão e, "crème de la crème", oferecer-lhe-á um jantar, a si e à esposa Melania, no último andar da Torre Eiffel. O menu - que não é conhecido, mas não deverá incluir hamburgueres ou outras iguarias de fast food -  estará a cargo do chef Alain Ducasse, nascido no Mónaco, cujo restaurante The Dorchester já conquistou três estrelas Michelin.

Se o convite de Macron a Trump para as cerimónias do dia nacional de França surpreendeu meio mundo, os analistas lembram que a presença de altos dignitários estrangeiros não é novidade: em 2008, lembra o jornal britânico The Guardian, o então presidente Nicolas Sarkozy recebeu o líder líbio Bashar al-Assad como convidado de honra.

Neste caso, está em foco a postura de Macron quando se encontrou com Trump pela primeira vez, em maio, em Bruxelas, numa reunião da NATO: supreendeu-o com um forte aperto de mão, deu prioridade a cumprimentar a chanceler Merkel e, mais tarde, encabeçou a oposição mundial à anunciada saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris.

Depois, lembram os analistas, o conhecimento de Trump sobre França pode deixar algo a desejar. Quiçá, confundindo Paris, no Texas, com a capital francesa, o atual presidente considerou em 2015, após os ataques terroristas na cidade europeia, que tudo seria diferente se os franceses pudessem andar armados.

Às vezes, Trump toma decisões de que não gostamos, como as do clima. Mas podemos lidar com isso de duas maneiras: ou dizemos, "não vamos falar com ele", ou podemos dar-lhe a mão para o trazer de volta ao círculo", salientou Christophe Castaner, um antigo socialistas, agora partidário de Macron, citado pelo jornal The Guardian.

Assim, na tarde desta quinta-feira, Macron e Trump têm agendada uma reunião no Eliseu, residência oficial do presidente francês, para avaliar questões em comum. A saber, a Síria - onde a França é o segundo país que mais contribui na coligação militar liderada pelos Estados Unidos -, o Iraque e as ações antiterroristas levadas a cabo, por exemplo, no norte de África.

Onde temos divergências, falamos sobre elas de forma muito clara - é o caso do clima - mas há items como o contraterrorismo em que estamos na mesma linha e necessitamos de uma cooperação mais próxima e ações comuns", salientou uma fonte oficial do Eliseu, citada pelo The Guardian.

Outra vez os russos

Se Macron tudo faz para ficar bem no retrato com o convite, a Donald Trump, a escapadinha de dois dias com Melania até à capital francesa, cai-lhe como "sopa no mel". Afasta-se por algumas horas do turbilhão de polémicas que continuam a aumentar em torno das suas ligações com os russos, antes e durante a sua campanha presidencial.

Há dias, surgiu a revelação por parte do The New York Times, de que o filho mais velho do presidente, Donald Trump Jr., tivera uma reunião com uma advogada russa ligada ao Kremlin, durante a campanha eleitoral de 2016, com a promessa de obter informações que pudessem prejudicar a rival democrata do seu pai, Hillary Clinton.

Agora, depois desse encontro ter sido confirmado, surge um filme de um animado jantar, divulgado pela cadeia de televisão CNN, com Trump e um milionário russo-azeri, Aras Agalarov, de seu nome, com fortes ligações ao presidente russo Vladimir Putin.

O repasto terá ocorrido em junho 2013, na cidade de Las Vegas. Trump era proprietário dos concursos de Miss EUA e Miss Universo e prometia organizar o segundo evento em Moscovo.

Presente no jantar e no filme estava também Rob Goldstone, um produtor britânico de música, que na altura tentava promover a obscura estrela pop russa, Emin Agalarov, filho do magnata Aras, com quem Trump negociava a realização do concurso de Miss Universo na Rússia.

Rob Goldstone, ao que se confirma, foi-se mantendo sempre na órbita de Trump. Foi ele quem apresentou o filho do presidente à advogada russa Natalia Veselnitskaia e ter-lhe-á proporcionado e-mails com informações que poderiam comprometer a candidatura democrata de Hillary Clinton.