O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, considerou à Lusa, no final de um ano de mandato, que está "pronto para o que der e vier", admitindo que a função que ocupa é "tão difícil como esperava".

O antigo primeiro-ministro português, que chegou no princípio deste ano ao mais elevado cargo político mundial, garante que está "pronto para o que der e vier" e, quando questionado sobre se ficou surpreendido com a complexidade de ser secretário-geral das Nações Unidas, admite que "a função é obviamente tão difícil como esperava".

Na parte da entrevista à Lusa, à margem da cimeira União Africana - União Europeia, em Abidjan, no final de novembro, que incidiu sobre o balanço do seu mandato, Guterres elencou a Gâmbia, onde o Presidente Yahya Jammeh se recusava a abandonar o poder, como uma das crises que conseguiu resolver no primeiro ano de mandato.

"A situação que mais rapidamente foi possível resolver foi na Gâmbia, houve uma conjugação de esforços da organização sub-regional africana, da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), da União Africana e da ONU", vincou.

"Temos um grande investimento para tentar ver se conseguimos na Líbia uma solução política, é a prioridade das prioridades", disse o secretário-geral da ONU, lembrando que também na República Democrática do Congo (RDCongo) foi possível algum progresso.

"Foi possível alguma perspetiva positiva na RDCongo, vamos ver ainda as condições de concretização", adiantou.

No entanto, Guterres admitiu que as crises que dominam as primeiras páginas dos jornais internacionais são difíceis de resolver.

"A generalidade das crises revelaram-se muito complexas, com muitos atores internos e externos, com muitos interesses, com muitos jogos de interesse, e aí a capacidade de resolução dessas crises tem-se verificado ser muito limitado, seja na Síria, no Iémen, no Sudão do Sul, no Afeganistão, em todos esses sítios é muito difícil ultrapassar os obstáculos que ainda se mantêm", concluiu o líder das Nações Unidas.

Questionado sobre como a comunidade internacional olha para Portugal, Guterres respondeu que o país "está na moda, olha-se para Portugal como um país seguro, o que é de uma enorme importância, muito acolhedor, e com condições muito atrativas para as pessoas se instalarem, quer as gerações mais antigas, quer as mais novas".

Há, acrescentou, "um conjunto de condições que favorecem [esta imagem], como as empresas mais modernas, de nova geração que exploram as tecnologias de ponta”.

“Isso é muito positivo na imagem externa do nosso país e espero que tenha consequências positivas em relação ao nosso desenvolvimento", concluiu o antigo Alto-Comissário da agência da ONU para os refugiados (ACNUR).

"Guterres teve um batismo de fogo na ONU"

Já os especialistas, ouvidos pela agência Lusa, consideram que o primeiro ano de António Guterres como secretário-geral das Nações Unidas foi marcado pela sua relação com os EUA e o seu novo Presidente, Donald Trump.

"Guterres teve um batismo de fogo na ONU. O seu desafio constante tem sido desenvolver uma relação com a administração Trump, e isso tem consumido uma grande parte do seu tempo e energia", disse à Lusa o professor universitário Richard Gowan.

Na terça-feira, marca-se um ano desde que António Guterres fez juramento sobre a Carta das Nações Unidas como secretário-geral da ONU. O português assumiu funções a 01 de janeiro, 20 dias antes de Donald Trump se tornar Presidente dos EUA.

Gowan, que é investigador do Centro Europeu de Relações Internacionais, disse que Guterres conseguiu persuadir Trump e a sua embaixadora junto da ONU, Nikki Haley, a não esvaziar o orçamento da ONU completamente, mas que ainda existem desafios.

"Trump ainda vê a ONU de forma suspeita e a sua decisão de retirar os EUA da UNESCO demonstra isso. Mas ele parece gostar de Guterres pessoalmente. E isso é algo que não era garantido no início do ano", explicou.

Gowan disse acreditar que "Guterres teve de trabalhar tanto no problema dos EUA que não teve tempo para muitos mais assuntos" e que o português deve estar "frustrado por ainda não ter conseguido um acordo de paz que será lembrado no mundo", como aquele que tentou negociar no início do ano para a reunificação do Chipre, que acabou por falhar.

Jean Krasno, que em 2016 liderou a campanha que tentou eleger uma mulher para o cargo de secretário-geral, disse que Guterres "lançou várias iniciativas para reformar a arquitetura das Nações Unidas e tornar a organização mais apta a enfrentar os obstáculos do mundo de hoje".

Krasno deu como exemplo de boas reformas a criação do Escritório de Contra Terrorismo ou a criação do Painel de Alto Nível de Mediação.

"O secretário-geral reforçou a capacidade de mediação através da criação do painel e da expansão do dossier de mediadores capazes que pode enviar a qualquer momento quando necessários em situações criticas", disse.

Jean Krasno, que é professora no City College em Nova Iorque, disse, no entanto, que "gostava de ver o secretário-geral aproveitar a oportunidade de ser um líder global para ser uma voz moral mais proativa".

A especialista disse acreditar que a recente declaração de Guterres sobre o povo Rohingya, dizendo que as atrocidades cometidas constituem uma limpeza étnica, mostraram o tipo de liderança de que a organização precisa.

"Entendo que um secretário-geral precise manter a imparcialidade e confiança dos membros, mas nestes tempos caóticos, em que parece haver um vazio de liderança, ele tem de se colocar à frente, usar os media, e tirar vantagem deste púlpito que o escritório oferece para ser uma bússola mural para o mundo", disse.

Gowan disse concordar que a voz Guterres não tem sido tanto ouvida como muitos esperavam e que, por vezes, o português "parece encurralado pelos limites do sistema da ONU".

"Ele fica extremamente aborrecido com o nível de burocracia no Secretariado. Suspeito que gostaria de estar mais no terreno, envolvendo-se de forma ativa na resolução de crises, mais do que o seu trabalho permite. Ele tinha mais liberdade quando liderava o Alto Comissariado para os Refugiados", explicou o professor.

O especialista alertou, no entanto, que "se 2017 foi um ano difícil para Guterres, 2018 pode ser pior, com os perigos de uma guerra na Coreia e o agravar da violência no Médio Oriente a lançarem uma longa sombra sobre a ONU".