O português, atualmente com 66 anos, já tinha alguma experiência na área, tendo sido um dos fundadores em 1991 do Conselho Português para os Refugiados, fundação em que participou juntamente com figuras como Teresa Tito de Morais ou Victor Sá Machado. A partir de Genebra, António Guterres passa a liderar uma agência com mais de nove mil funcionários, e um orçamento anual da ordem dos seis mil milhões de euros. E passa a conhecer profundamente, muitas vezes in loco, o dramático fenómeno de refugiados e deslocados internos, que não cessam de aumentar neste início do século XXI. Com um importante contributo negativo das guerras que se vivem na Síria e no Iraque, o número de refugiados em todo o planeta ultrapassou a barreira dos 50 milhões, um número superior ao que existia no final da Segunda Guerra Mundial.

 

O fator Angelina

A década de António Guterres à frente do ACNUR fica incontornavelmente marcada pela colaboração da superestrela de cinema Angelina Jolie. A atriz americana foi autora do maior donativo individual alguma vez feito ao Alto Comissariado, um milhão de dólares, em 2001. E nesse mesmo ano, ainda antes da chegada de Guterres, é escolhida como embaixadora da boa vontade da agência.

Angelina Jolie visita refugiados em campos pelos quatros cantos do globo, a colaboração da vedeta de Hollywood com o ACNUR e António Guterres intensifica-se ao longo dos anos. E em 2012, Jolie passa a ostentar o posto de enviada especial do Alto Comissário. Um cargo que foi criado pelo próprio Guterres. As viagens e iniciativas em comum entre o político e atriz são cada vez mais frequentes. Em abril deste ano, foram juntos falar ao Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre o assustador e cada vez mais grave fenómeno da vaga de migrantes que atravessam o Mediterrâneo em embarcações precárias e superlotadas, muitas vezes tornadas autênticos caixões, bem como da ligação desta tragédia a um dos conflitos mais desestabilizadores e sangrentos da atualidade, a guerra civil na Síria.

 

Belém? Não, obrigado

Apontado há muito como o candidato quase imbatível da esquerda para suceder a Cavaco Silva no Palácio de Belém, António Guterres só em abril deste ano tornou claro o seu desinteresse por uma corrida à Presidência da República. Numa entrevista à Euronews, o antigo chefe do executivo português afirmou: “Não sou candidato a ser candidato”. E quanto ao seu futuro imediato após cessar funções no final deste ano, Guterres precisou:

“O que gosto mais de fazer é o tipo de função que tenho atualmente.”