O futuro secretário-geral da ONU, António Guterres, deixou hoje nas primeiras declarações à imprensa portuguesa desde que foi eleito "uma palavra enorme de agradecimento aos portugueses".

Deixo uma palavra enorme de agradecimento aos portugueses. Tive um apoio extraordinário do Governo português, do senhor Presidente da República, do parlamento, dos diversos partidos políticos e de muita gente, muitas organizações. Senti-me rodeado de um enorme carinho e acho que isso contribuiu para esta vitória", declarou o antigo primeiro-ministro português.

No primeiro discurso na Assembleia-geral da ONU, após aclamação como novo líder das Nações Unidas, que iniciará funções a 01 de janeiro de 2017, António Guterres repetiu as duas palavras que resumem o que sentiu quando soube da decisão tomada pelo Conselho de Segurança de o indicar para liderar a organização internacional: "gratidão e humildade".

O antigo Alto-comissário para os Refugiados diz que esse apoio foi essencial durante a campanha dos últimos meses.

Esta extraordinária unidade dos portugueses, este extraordinário calor humano que senti, não só foi ótimo para o meu animo, como teve um impacto importante para ajudar naquilo que tiveram ocasião de ver: a unidade e consenso que se estabeleceu no Conselho de Segurança e na Assembleia-geral".

Questionado sobre declarações do conselheiro de Estado Eduardo Lourenço, que considerou a sua eleição o momento mais importante da história do país desde o 25 de Abril, o Guterres disse que "só a generosidade de Eduardo Lourenço é que o levaria a dizer uma coisa dessas.

Acho que há coisas muito mais importantes na história do nosso país. Para mim, obviamente, este é um momento importante em que vou tentar dar o meu melhor, numa função que é muito difícil, como todos sabemos. É uma obrigação que eu tinha, de por ao serviço da comunidade internacional as experiências que, com imensa sorte, em toda a minha vida, pude ir acumulando", declarou o filósofo e escritor.

 

"Ainda não pensei a sério em tudo o que vai mudar"

António Guterres acrescentou que ainda não teve tempo de pensar no que vai mudar na sua vida.

Não, ainda não tive tempo. Ainda não pensei a sério em tudo o que vai mudar na minha vida. Tenho de agradecer imenso à minha família, sobretudo à minha mulher, aos meus filhos e à minha mãe, pela grande compreensão que tiveram em balançar esta campanha, porque isso vai causar enormes problemas a todos eles e todos foram de uma extraordinária solidariedade", declarou o antigo primeiro-ministro português.

Guterres admitiu que a perda de liberdade "é um dos aspetos menos agradáveis" do seu novo cargo.

É um dos aspetos que diria menos agradáveis desta função. Pelos vistos, será ainda pior do que era quando estava no Governo [português]. Apesar de tudo, o nosso sistema de segurança é muito eficaz, mas muito leve, o [nível] de ameaça é pequeno", disse.

O antigo Alto-comissário para os refugiados afirmou que a rapidez com que o processo foi concluído o surpreendeu.

Houve uma aceleração no fim que deixou toda a gente surpreendida e eu próprio me senti surpreendido. Fui sentindo que o carácter aberto deste processo, o facto de ter havido provas publicas, debates, me tinha favorecido, mas obviamente era muito difícil saber o que se ia passar dentro das paredes fechadas do Conselho de Segurança. Eu próprio fui surpreendido pela rapidez da decisão", confessou.

 

"Temos de ter uma grande humildade"

Guterres disse que precisa de ter "uma grande humildade" no cumprimento do seu novo cargo.

Temos de ter uma grande humildade. Isto ainda não começou verdadeiramente. Há todas estas palavras, muito simpáticas, muito elogiosas, mas penso que daqui a um ano ou dois as coisas serão mais difíceis", afirmou António Guterres, nas primeiras declarações à imprensa portuguesa desde que foi eleito

Além da humildade, Guterres considerou: "é preciso um grande espírito de serviço e ter consciência de que o sofrimento humano a que assistimos hoje é tal que cada um de nós não conta, o que conta é fazermos tudo aquilo que podermos para reduzir esse sofrimento e espero que esse lugar me de a possibilidade de fazer alguma coisa seria a esse respeito".

Sobre as suas prioridades, António Guterres reafirmou que a sua principal aposta será na diplomacia da paz.

A primeira grande preocupação hoje, como seguramente no 01 de janeiro, tem a ver com a paz e tem a ver com a necessidade muito grande de um impulso para a paz. Estamos a assistir a uma degradação terrível das condições internacionais em matéria de conflito, terrorismo, tudo interligado de uma forma trágica com consequências dramáticas para todos nós", declarou aos jornalistas portugueses.

O antigo primeiro-ministro português vincou que a Síria é o conflito mais urgente, mas que vários outros merecerão a sua atenção.

É verdade que temos uma preocupação central com a Síria, mas não podemos esquecer que não é só a Síria. Todos estes conflitos são interligados. Há também o Iémen, a Líbia, a Nigéria, o Mali, conflitos interligados e ligados com o terrorismo global. Temos de fazer um enorme esforço para mostrar aos países, os Estados-membros, que todas as suas divergências são pequena coisa em relação ao interesse vital de todos nós de pormos fim a esta situação que se está a degradar, com riscos tão grandes para a segurança coletiva da humanidade", explicou.

 

Guterres vai nomear mulher para secretária-geral adjunta

Guterres anunciou, ainda, que vai nomear uma mulher para secretária-geral adjunta.

Quando propuser uma secretaria-geral adjunta será uma mulher. É a minha firme intenção que seja uma mulher".

Guterres vincou que "é normal em termos de paridade que, se o secretário-geral for um homem, a secretária-geral adjunta seja uma mulher e que se a secretária-geral for uma mulher que o secretário-geral adjunto seja um homem".