Ben Bradlee, antigo editor principal do Washington Post que supervisionou a cobertura do escândalo do Watergate, morreu esta terça-feira, anunciou o diário norte-americano.

Ben Bradlee, que tinha «guiado a transformação do Post num dos principais jornais do mundo, morreu a 21 de outubro na sua residência em Washington, de causas naturais», informou o jornal através da sua página de internet.

A reconhecida figura do jornalismo morreu aos 93 anos e o jornal, que dirigiu durante 26 anos, definiu-o como «o mais célebre editor de jornais da sua era». O The Post refere que o seu charme e dom para a liderança fizeram dele o editor do jornal mais célebre da sua época. 


  

Bradlee tornou-se uma das figuras mais importantes em Washington como editor executivo do Post, de 1968 até 1991. Passou também a fazer parte da história do jornalismo ao transformar o Post numa das publicações mais respeitadas nos EUA.

O Washington Post explica que desde que foi nomeado editor-chefe do jornal, Bradlee tinha como intenção fazer um jornal novo e ir além do modelo tradicional, combinando novas histórias com artigos que na época se encontravam apenas nas melhores revistas. 


  

A história mais conhecida de Bradlee foi o caso Watergate, um escândalo político desencadeado pelo relato do Post, que terminou na única renúncia de um presidente na história dos EUA. O caso fez com que o jornal recebesse um prémio Pulitzer.

Bradlee autorizou Bob Woodward e Carl Bernstein, dois repórteres do Washington Post, a investigarem o assalto à sede do Comité Nacional Democrata, no Complexo Watergate, em junho de 1972.

O editor também aprovou o uso da fonte não identificada «Garganta Profunda», que revelou que o presidente sabia das operações ilegais. O jornal publicou cerca de 400 artigos sobre o Watergate em 28 meses e, a 9 de Agosto de 1974, quando várias provas ligavam os atos de espionagem ao Partido Republicano, Nixon renunciou à presidência. 


  

Imprimir histórias baseadas em documentos secretos do Pentágono, que continham decisões da Guerra do Vietname, foi outra decisão importante de Bradlee, em conjunto com Katharine Graham, editora do Post.

«Ele insistiu o máximo que um editor pode insistir para imprimir a história dos Documentos do Pentágono e liderou a equipa que revelou a história de Watergate», disse Donald Graham, ex-editor do The Washington Post.

Era amigo do presidente John F. Kennedy, tendo sido colegas em Harvard, e da sua mulher. Após o assassinato de Kennedy, a viúva cortou relações com Bradlee, por ter publicado «Conversas com Kennedy», em 1975, uma obra que provou que mantinha notas das conversas com o presidente, que Jacqueline considerou serem confidenciais.

O Presidente Obama, em 2013, entregou a Bradlee a Medalha Presidencial da Liberdade, pelo seu papel no The Post. «Ele transformou o jornal num dos melhores do mundo.» 


  

Percurso de Bradlee
Ben Bradlee nasceu em 1921, em Boston, no estado norte-americano de Massachusetts. Depois de se formar em Harvard, foi diretor de comunicações da Marinha durante a Segunda Guerra Mundial.

A carreira de Bradlee no Washington Post começou em 1948 como repórter policial. Deixou esse emprego para se tornar um adido de imprensa da Embaixada dos EUA em Paris, depois foi correspondente da revista Newsweek em Paris e do seu chefe da sucursal de Washington.

Bradlee acabou por voltar para o Post, foi nomeado editor-chefe em 1965 e tornou-se editor-executivo em 1968, mantendo esse cargo até 1991. 

Editor homenageado
Após a morte do lendário editor do Washington Post, pessoas ligadas ao jornalismo, colegas de Ben e até leitores expressaram os seus sentimentos e compartilharam lembranças pessoais sobre Ben Bradlee.

Presidente Obama disse num comunicado: «Para Benjamin Bradlee, o jornalismo era mais do que uma profissão - era um bem público vital para a nossa democracia. Um verdadeiro jornalista que transformou o Washington Post num dos melhores jornais do país, e com ele no comando, um crescente exército de repórteres (…) contaram histórias que precisavam ser contadas - histórias que nos ajudaram a compreender o nosso mundo um pouco melhor.»

«Ben Bradlee já deixou uma marca permanente na história e na nossa profissão. Tem sido uma inspiração para gerações de jornalistas, demonstrando o que a nossa profissão pode alcançar quando é conduzida com coragem e com um compromisso firme com a verdade. Lamentamos a sua morte, mas continuaremos a guiar-nos pelos altos padrões que estabeleceu na construção de uma das maiores redações do mundo», disse Martin Baron, editor executivo do The Post.

Jill Abramson, ex-editora do New York Times, afirmou: «Ben teve a total alegria do jornalismo. Ninguém se divertia mais a perseguir uma grande história e nenhum editor tornou a perseguição mais divertida.»