Um dos episódios da série de animação «South Park» começa com a vitória eleitoral de Barack Obama, a 4 de Novembro de 2008. Nesse dia, a América politicamente incorrecta criada por Trey Parker e Matt Stone divide-se entre dois estados de espírito: um tomado pela embriaguez do messianismo que gira em torno do presidente democrata; outro submergido por um conformismo apocalíptico republicano, que acredita que o mundo vai acabar antes do Sol se pôr. Na visão cáustica de South Park, os atingidos pelo primeiro destes estados acordam no dia seguinte com uma violenta ressaca; os segundos abandonam os abrigos nucleares em que se tinham refugiado, surpreendidos pelo facto de o dia ter nascido.

«South Park» não é uma fotografia da América real. Mas apresenta, entre salpicos grossos de humor negro, uma caricatura do país onde há um ano Obama assumiu a presidência. Desde essa altura, o lado democrata deu conta que, apesar da vida do primeiro chefe de Estado afro-americano dar um filme, ele não é um herói de Hollywood que resolve problemas com uma bateria de efeitos especiais. Do lado republicano percebeu-se que os Estados Unidos não se tornaram num estado socialista soviético, mergulhado num abismo económico, rumo ao armagedão. E que, para já, está a salvo Wall Street.

Ainda pode?

Desde a tomada de posse, o discurso de Obama também sofreu nuances para tons mais comedidos. Do «sim, nós podemos mudar», o presidente anota agora que a «mudança é difícil», como sublinhou na semana passada. Mesmo assim, os discursos do presidente norte-americano marcaram um ponto de viragem na relação dos EUA com o resto do mundo. O mais significativo, segundo os analistas, foi proferido a 4 de Junho, no Cairo, onde exorcizou o fantasma da inevitabilidade do conflito de civilizações. «Vim até aqui em busca de um recomeço, entre os EUA e os muçulmanos de todo o mundo», disse na Universidade de al-Azhar, quase um ano depois de ter assegurado em Berlim - ainda como candidato -, que com ele os EUA regressariam ao multilateralismo, de braço dado com os europeus.

Já na Casa Branca, Obama conseguiu dissolver antagonismos que dividiam Bush e a «Velha Europa». Relançou também as relações com a Rússia, com quem chegou a um acordo para a redução dos arsenais nucleares. Aligeirou a relação com Cuba, ainda sem pôr fim ao embargo. Proibiu a tortura de prisioneiros. Acabou com as prisões secretas da CIA. Guantánamo tem fim à vista e a presença militar no Iraque também. Internamente, decidiu avançar com uma reforma do sistema de saúde e com um plano de recuperação financeira, apesar de o desemprego ser elevado. Dizem os seus defensores que o ambiente em Washington melhorou com Obama e Obama diz que quer melhorar o ambiente, apesar do falhanço na Cimeira de Copenhaga (mas aí todos terão falhado).

Num artigo de balanço, publicado no «Washington Post», o colunista Eugene Robinson não poupa elogios ao presidente, recordando as medidas por ele tomadas, acima descritas. «Tudo isso e um Prémio Nobel da Paz», anota, perdoando-lhe, tal como fez o comité norueguês, o puzzle turvo da guerra afegã.

Do outro lado da barricada, há quem descreva Obama com menos romantismo, como o analista político Juan Williams, que num artigo publicado na página da FoxNews explica o sucesso do presidente em duas penadas: «Um ano depois a maior "mudança" que pode apontar é que é o primeiro presidente negro e não é o presidente Bush».

Quebra na popularidade

Obama tem, um ano depois, muito menos popularidade. Sofreu o maior declínio nas taxas de aprovação durante o primeiro ano de presidência desde que estes estudos são realizados. Em muitos estudos, praticamente não atinge os 50%.

Agora, prepara-se para enfrentar uma dura realidade nas eleições do estado de Massachusetts, com a possibilidade de um republicano conquistar o lugar no senado que pertenceu durante quase cinquenta anos a Ted Kennedy.