Noura Hussein, agora com 19 anos, viu a sua sentença de condenação à morte reduzida para cinco anos de prisão por um tribunal do Sudão, país do leste da África, maioritariamente muçulmano, onde são legais os casamentos com meninas após os dez anos de idade e a violação conjugal é tudo, menos um crime.

Uma forte campanha internacional, levada a cabo por organizações internacionais de direitos humanos, tinha-se mobilizado em defesa de Noura Hussein. A decisão do tribunal sudanês é agora louvada pela Amnistia Internacional, após ter reduzido a pena à rapariga, condenando-a a cinco anos de prisão e ao pagamento de uma indemnização à família do marido que lhe foi imposto: no valor de 337 mil libras locais, cerca de 16 euros.

Apesar da redução da pena agora decidida, os advogados de Noura tencionam ainda recorrer. Quer do tempo de prisão, quer da indemnização.

Lua de fel

Noura Hussein tinha 15 anos quando foi casada com o marido, oriundo de uma família rica do Sudão. Então, estudava. Teria até o desejo de conseguir licenciar-se em Direito, segundo os relatos da imprensa internacional. Por isso, a sua família permitiu-lhe continuar os estudos por mais três anos. Até ao 18.

Três anos depois, realizou-se o casamento público. O marido com 35 anos tentou desde logo consumar sexualmente o acto. Mas Noura resistiu e recusou-se a fazer sexo na Lua de Mel.

Ao nono dia, os seus parentes chegaram e um seu tio disse-me para ir para o quarto. Eu disse-lhe não e ele arrastou-me pelo meu braço até o quarto. Um primo dele deu-me uma estalada. Rasgaram-me a roupa. O tio segurou-me, agarrou-me as pernas e outros agarraram-me os braços. Ele despiu-me e teve-me, enquanto eu chorava e gritava. Finalmente, saíram da sala. Eu estava a sangrar e dormi nua", descreveu Noura, em sua defesa, segundo os relatos da imprensa internacional.

Conta a rapariga que, no dia seguinte, o marido a atirou para cima da cama e tentou violá-la novamente.

Comecei a lutar e a minha mão encontrou uma faca debaixo do travesseiro. Lutámos para agarrar a faca. Ele cortou-me a mão e mordeu-me no meu ombro", refere Noura, que aí acabou por apunhalar o marido, matando-o.

No dia seguinte, pediu ajuda em casa dos seus pais. Entregaram-na à polícia.

Faca debaixo do travesseiro

Após o recurso e a forte campanha internacional em defesa de Noura, o tribunal aceitou a versão da jovem. Sobretudo, que ela encontrou uma faca debaixo do travesseiro com a qual esfaqueou o marido. E que não a levara consigo, da cozinha.

Após a indignação internacional e várias petições por todo o mundo pedindo que a sentença de morte de Noura fosse retirada, um tribunal sudanês reduziu-lhe a condenação esta terça-feira.

Novo apelo da defesa vai seguir, para lhe garantir a liberdade.