O veleiro francês “ Reves D'o” que se afundou, na quinta-feira de madrugada, a sudoeste da ilha das Flores, nos Açores, era de uma família que queria dar a volta ao mundo. O pai, Claude, de 39 anos, a mãe Sophie, de 37 anos, o filho Hugo, com nove anos, e a filha Inès, de seis anos, partiram de La Rochelle, em França, no dia 16 de agosto de 2014, num catamarã, à descoberta do mundo… mas a aventura terminou no dia 7 de maio de 2015 da forma mais trágica.

Quando a embarcação naufragou, devido às condições meteorológicas adversas na zona, mãe e filho conseguiram entrar para a balsa salva-vidas e foram resgatados pelo navio mercante Yuan Fu Star, de Hong Kong. Já pai e filha saltaram para a água com os coletes salva-vidas vestidos e estiveram desaparecidos durante cerca de duas horas. Os dois foram depois resgatados com vida, mas a menina não resistiu aos efeitos da "longa permanência na água" e acabou por morrer, informou a Marinha portuguesa.

A família, agora destroçada, era claramente apaixonada pelo mar. No blogue revesdo.over, que é uma espécie de diário de bordo, o pai Claude revela que é um paisagista empreendedor “desde sempre apaixonado pelo mar”. Sophie, a mãe, é apresentada como estando “sempre pronta para uma nova aventura!”. Ainda de acordo com o blogue, o filho Hugo “só está bem na água, ou melhor, debaixo de água!” e a filha Inès é “um pequeno tornado cheio de vida.”
 

Um outro modo de vida

 
Para os quatro, o veleiro era uma casa. Claude conta que foi quando fizeram uma viagem às Ilhas Maurícias, no fim de 2011, que descobriram a necessidade de procurar outros lugares, “outras pessoas, outros alimentos, outras bebidas.”

“Conhecemos pessoas de uma delicadeza... sempre sorridentes, felizes e no entanto sem um centavo no bolso! E depois o calor e andar de calções de manhã à noite… que conforto!!”, lê-se no blogue da família.


Depois de voltarem daquela viagem, Claude e Sophie decidiram organizar uma vida nova com as duas crianças.

“Num catamarã, para explorar o mundo, e para que as crianças aprendam a brincar com ‘nada’, mostrar-lhes que o entretenimento não se faz apenas de videojogos e de televisão… sair deste mundo de excesso de consumo e regressar de volta ao básico!”, escrevem.  


E foi isso mesmo que fizeram. Depois de três anos a prepararem-se para a grande aventura, levantaram âncora de La Rochelle, no dia 16 agosto de 2014, em direção à Corunha, em Espanha. Passaram depois pelas ilhas Cíes, um arquipélago situado à entrada da ria de Vigo, na Galiza. Em agosto e setembro de 2014 navegaram em águas portuguesas: passaram pelo Porto, Figueira da Foz, Leixões, Peniche, Lisboa e Lagos. Em outubro de 2014, zarparam em direção às ilhas Canárias e em novembro rumaram a Cabo Verde.

Afirmando terem tirado partido de todas escalas da viagem, Claude, Sophie, Hugo e Inès lançaram-se na grande travessia do oceano Atlântico e, em dezembro de 2012, chegaram às Caraíbas, onde ficaram vários meses. Martinica, Guadalupe, Antígua e Barbuda foram algumas das ilhas onde concretizaram a grande aventura de viver sempre ao sol.
 

Regresso trágico


A 24 de abril de 2015, a família decidiu fazer a rota inversa de Cristóvão Colombo e regressar ao continente europeu. O sonho de concretizar a volta ao mundo e de atravessar o oceano Pacífico ficou, naquela altura, adiado. O casal tinha agora outros planos.

“Para já temos outros projetos. No próximo ano, as crianças vão frequentar a escola em La Rochelle, poderemos desfrutar de fins de semana e de férias escolares para descobrir a costa francesa. Gostaríamos também de navegar mais para cima e dizer Olá aos nossos vizinhos ingleses e holandeses! E porque não dar uma volta ao Mediterrâneo no próximo ano ou daqui a dois anos? Em qualquer caso, é certo que retomaremos esta bela aventura que é a navegação transatlântica que nós gostaríamos de partilhar com os nossos entes queridos! Como se esta primeira viagem fosse apenas um rascunho...! Mas que belo rascunho!”, lê-se no blogue.


No dia 24 de abril, último dia registado no blogue revesdo.over, a família iniciou a travessia do Atlântico, numa viagem de regresso “ao norte”, como eles próprios escreveram, com o objetivo de chegar à cidade da Horta, na ilha açoriana do Faial, nos 18 a 20 dias seguintes. O objetivo de chegarem aos Açores cumpriu-se. Mas não o conseguiram fazer sãos e salvos.