As autoridades italianas afirmaram esta terça-feira que o pior desastre com migrantes no Mediterrâneo, que causou cerca de 800 mortos, se deveu a erros do capitão e à sobrelotação da embarcação.

A procuradoria da Catânia (Sicília) disse que a embarcação colidiu com um cargueiro de bandeira portuguesa que a veio socorrer antes de se virar, mas absolveu a tripulação do navio mercante de qualquer responsabilidade na tragédia.

A embarcação virou-se depois da colisão devido a erros de manobra do capitão e a movimentos de pânico das centenas de migrantes que ocupavam a antiga traineira com 20 metros, segundo as autoridades.

A colisão com o cargueiro português como causa do naufrágio foi avançada por uma responsável do Alto Comissariado das Nações Unidas para os refugiados (ACNUR),
 em declarações à CNN. A segunda hipótese levantada por Carlotta Sami foi a de o barco ter virado devido à ondulação forte gerada pelo cargueiro que se aproximou. 

As possibilidades foram colocadas em cima da mesa depois de Sami e dos restantes responsáveis da ONU terem ouvido os relatos dos sobreviventes da tragédia.

«Eles [sobreviventes] dizem que houve um ponto em que os navios estavam muito próximos. Estavam a aproximar-se de uma maneira muito forte e perderam o equilíbrio.»


O Alto Comissariado das Nações Unidas para os refugiados confirmou ainda que 800 imigrantes morreram no naufrágio.

«Podemos dizer que 800 pessoas morreram», declarou Carlotta Sami, porta-voz do ACNUR em Itália, a partir da Sicília.



Representantes do ACNUR e da Organização Internacional para as Migrações (OIM) indicaram ter entrevistado a maioria dos sobreviventes que chegaram ao porto de Catania, no sul da Sicília, por volta da meia-noite (23:00 de segunda-feira em Lisboa).

«Confrontamos os testemunhos, havia pouco mais de 800 pessoas a bordo, incluindo crianças com idades entre 10 e 12 anos.»


Os 27 sobreviventes do naufrágio chegaram esta segunda-feira ao porto de Catania, na ilha italiana da Sicília. Segundo a agência Reuters, dois dos sobreviventes foram detidos, logo após o desembarque, por suspeitas de se tratarem de traficantes de pessoas.

Inicialmente, a Guarda Costeira italiana tinha estimado 700 desaparecidos. No entanto, um dos sobreviventes, um migrante do Bangladesh afirmou, num relato emocionado, que havia cerca de 950 pessoas a bordo do navio, incluindo 40 ou 50 crianças e 200 mulheres. O sobrevivente, de 32 anos, acrescentou que muitas dessas pessoas estavam fechadas, com as portas dos compartimentos trancadas, uma informação que já foi confirmada pelas autoridades italianas.

A traineira, que zarpou da Líbia no domingo com destino a Itália, transportava imigrantes oriundos nomeadamente da Síria, Eritreia, Somália, Mali, Gâmbia, Senegal e Bangladesh.

O naufrágio já é tido como a maior tragédia marítima do pós-guerra e motivou a realização de um Conselho Europeu extraordinário na próxima quinta-feira em Bruxelas. 

Simultaneamente, a União Europeia (UE) anunciou que vai por em marcha um plano de contingência para combater as redes de tráfico ilegal de migrantes e evitar estes acontecimentos trágicos.  As novas medidas incluem destruir os barcos dos grupos criminosos e enviar os migrantes para os seus locais de origem. 

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) reclamou «uma ação rápida, coletiva e determinada» para evitar novas tragédias no Mediterrâneo, apelando às autoridades para que respeitem «o superior interesse das crianças».

«Os dois incidentes trágicos em apenas dois dias no Mediterrâneo vêm reforçar a necessidade de atuação rápida, coletiva e determinada», adianta a UNICEF num comunicado emitido a propósito dos naufrágios ocorridos no Mediterrâneo que, desde domingo, causaram um número indeterminado de mortos.

Para a UNICEF, «os relatos de tragédias no Mediterrâneo – que têm provocado centenas de mortos e desaparecidos, entre os quais muitas crianças – estão a tornar-se, demasiado frequentes e com custos humanos inaceitáveis».