O ex-primeiro ministro britânico, Tony Blair, pediu a Khadafi que se afastasse do poder, de modo a haver uma mudança de regime pacífica na Líbia.
 
O apelo do antigo chefe do governo britânico foi feito numa conversa telefónica, a 25 de fevereiro de 2011. Dois telefonemas no mesmo dia. A transcrição dessas conversas foi agora divulgada pelo Comité dos Negócios Estrageiros da Câmara dos Comuns - e revelada pelo Huffington Post - e após o testemunho dado àquela câmara por Tony Blair, no âmbito do inquérito à atuação do Reino Unido face à crise na Líbia.
 
Khadafi foi morto em outubro de 2011, pondo um ponto final a 42 anos de ditadura naquele país do norte de África e deixando um país em guerra civil.

No primeiro telefonema, Khadafi desdramatizou ao então primeiro-ministro britânico a situação que se vivia na Líbia. Argumentou que não havia violência nem derramamento de sangue e que os casos de violência contra esquadras de polícia eram obra de células terroristas.
 

Não é uma situação difícil de todo. A história é apenas esta: uma organização instalou células no Norte de África. Chama-se al Qaeda do Norte de África (…) As células escondidas da Líbia são semelhantes às que estavam escondidas nos Estados Unidos antes do 11 de setembro”, disse Muammar Khadafi.


Por seu turno, o britânico insistiu que a única coisa que poderia acalmar os revolucionários e prevenir uma guerra civil seria uma mudança de poder proporcionada por Khadafi, de livre vontade e anunciada de forma pública, prometendo-lhe, em troca, mediar o diálogo com a União Europeia e com os Estados Unidos.
 

Posso ajudar com a comunidade internacional, mas só posso fazê-lo num processo de diálogo de paz. Sem violência. O processo de transição do poder tem de ser feito de forma pacífica (…) Eu faço esse papel com todo o gosto, mas tenho que ter a sua palavra”, afirmou Blair.

 
No decurso da conversa, Khadafi disse “não ter problemas com o povo líbio”, afirmando que a “primavera árabe” em curso era “obra dos islamitas”.
 
Depois de prometido o retomar da conversa, passadas duas horas, o segundo telefonema decorreu num tom menos amistoso.
 
Blair, muito mais firme, começou a conversa por afirmar perentoriamente que “o banho de sangue e a violência tinham que terminar”.
 
Mas, Khadafi negou-o, dizendo que garantia “a 100% que não havia violência” no país. E, o ditador líbio acrescentou que tais notícias eram “parte de uma campanha de colonização”.
 
Tony Blair ainda aconselhou o líder líbio a mudar-se “para um sítio seguro”. Khadafi aconselhou o político britânico a “deixá-lo em paz”.
 
O presidente do Comité dos Negócios Estrangeiros, Crispin Blunt, concluiu que, embora a visão da comunidade internacional por parte de Khadafi fosse “irrealista”, ele foi muito mais clarividente sobre a ameaça do extremismo islâmico do que os líderes ocidentais.