Esta é uma história de mulheres de armas. Fartas dos sequestros e homicídios que atingiam a cidade onde vivem, as mulheres de Cherán expulsaram criminosos, polícias e políticos. Hoje, esta cidade, localizada num dos estados mais sangrentos do México, é governada por elas, como mostra uma reportagem da BBC divulgada recentemente.

O crime organizado associado ao tráfico de droga é um dos maiores problemas do México. Está um pouco por todo o lado e os traficantes, que outrora lidavam apenas com a droga em si, acabaram por dominar outros setores da sociedade como, por exemplo, a indústria madeireira.

Chéran é uma pequena cidade localizada em Michoacán, um dos estados mais sangrentos do México - só em julho, houve mais de 180 homicídios neste estado, segundo a BBC.

Mas Chéran, com cerca de 20 mil habitantes, na sua maioria indígenas da tribo Purepecha, está "livre" das redes criminosas que devastam comunidades ali tão perto. A “revolução” nesta localidade aconteceu há cinco anos e foi liderada por um grupo de mulheres locais.

Em 2011, a indústria madeireira estava a devastar profundamente as florestas da região: afetavam os cursos de água que, por sua vez, afetavam a agricultura e a criação de animais.

Perante este cenário, um grupo de mulheres decidiu agir e tentar falar com os madeireiros, que, ligados a tráfico de droga, possuíam armas e eram indivíduos perigosos. Sem sucesso. Foram agredidas verbalmente e perseguidas.

Mas estas mulheres locais não desistiram e optaram por mudar de estratégia: começaram a interromper a passagem dos camiões dos madeireiros pela cidade. Depressa puderam contar com a ajuda de outros habitantes.

E a 15 de abril desse ano, chegou o dia da "libertação" de Chéran. As mulheres pararam os camiões e fizeram os madeireiros reféns. O caos estava instalado nas ruas. Houve confrontos entre moradores, criminosos e a polícia.

Os residentes conseguiram, por fim, expulsar os madeireiros. Mas não se ficaram por aí: também expulsaram polícias e políticos locais que estavam associados à atividade criminosa.

Hoje, Chéran é uma cidade com caraterísticas muito próprias. Ainda recebe apoios do Estado, mas o governo mexicano reconhece a sua autonomia.

Tem um comité municipal, que é constituído por representantes dos quatro bairros da cidade, e que é a entidade que toma as decisões políticas. Os partidos políticos foram proibidos, numa decisão que foi aceite pela Justiça mexicana com a condição de que a cidade não participa em atos eleitorais, quer ao nível regional, quer ao nível nacional.

A polícia é uma organização comunitária, formada por homens e mulheres locais. Todos os condutores que passam por aqui têm de parar e dizer de onde vêm e para onde vão.

Ao contrário do que acontece nas localidades vizinhas, os habitantes dizem que se sentem seguros nas ruas. E até as florestas são vigiadas diariamente pela polícia.

Num estado sangrento como o Michoacán, Cherán tornou-se um oásis de esperança.