A comissão internacional independente formada para avaliar a existência de crimes de guerra e contra a humanidade na Faixa de Gaza solicitou esta quinta-feira ao Governo israelita que justifique as razões da elevada destruição e morte de civis, noticia a Lusa.

«Verificámos um grau de destruição muito elevado, o que poderá indiciar alguma coisa», declarou, em Coimbra, à agência Lusa Francisco Côrte-Real, que fez parte da «Independent Fact Finding Comittee», em representação do Instituto Nacional de Medicina Legal (INML), mediante solicitação da Liga Árabe.

De acordo com este membro do Conselho Directivo do INML, o Governo de Israel terá de se pronunciar sobre os bombardeamento de Gaza entre 27 de Dezembro e 19 de Janeiro últimos, e se não o fizer a comissão produzirá na mesma o relatório a que se comprometeu no prazo previsto, até final do mês de Abril.

«Gostaríamos de ouvir todas as partes. Uma informação muito importante é a resposta de Israel sobre a sua posição e o porquê da destruição, mas se não responder o relatório será feito na mesma», assegurou Francisco Côrte-Real, membro de uma comissão que integrou um juiz norueguês, dois professores de Direito, um sul-africano e outro holandês, e dois advogados, um espanhol e uma australiana.

Visita ao território

A «Independent Fact Finding Comittee» esteve em missão na Faixa de Gaza de 20 de Fevereiro a 1 do corrente mês de Março, e durante esse período «reuniu muita informação, documentos, fotografias e falou com pessoas».

A comissão reuniu-se com o governo do Hamas, a oposição, a Cruz Vermelha Internacional, o Centro Palestiniano de Direitos Humanos, a ONU, organizações não governamentais, directores de hospitais, interventores políticos, advogados e testemunhas, acrescentou o representante português.

Francisco Côrte-Real disse que, enquanto perito médico-legal em dano corporal, realizou dez exames periciais a mulheres e crianças que poderão integrar o relatório a entregar à Liga Árabe.

Os peritos independentes pretendem que o governo de Israel justifique o porquê de os bombardeamentos terem atingido hospitais, ambulâncias, mesquitas e fábricas que aparentemente não seriam alvos militares, como foi o caso de uma unidade de produção de sumos.

«Prisão de 45 quilómetros por oito»

Os peritos querem ainda conhecer as razões porque foram atingidas muitas residências, e muitos civis, sendo um terço das vítimas crianças.

«Verificámos lesões muito graves, muitas queimaduras extensas e amputação de membros. Uma destruição muito elevada e um sofrimento muito grande», observou, salientando que a Liga Árabe tenciona fazer chegar o relatório às Nações Unidas e ao Tribunal Penal Internacional (TPI).

Segundo Francisco Côrte-Real, aquele povo «está em condições de vida desumanas, numa grande prisão de 45 quilómetros por oito quilómetros, em que é extremamente difícil entrar e sair do território» e onde faltam alimentos, medicamentos e pequenas peças para equipamentos, que inviabilizam o funcionamento.

Há problemas de electricidade, há dificuldades de saída dos feridos para a Turquia ou o Egipto e «o bloqueio torna a situação extremamente difícil no território, com pessoas absolutamente dependentes da alimentação fornecida pela ONU», concluiu.