Documentos da Guerra Fria, divulgados esta terça-feira, revelam que a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher quase provocou uma crise diplomática, quando tentou salvar a família de um dos espiões britânicos mais importantes, Oleg Gordievsky, que chegou a vice-chefe do KGB.

Gordievsky passou muita informação importante do KGB para o MI6, mas desertou da União Soviética em 1985, temendo ser descoberto. Numa operação aprovada por Thatcher, o espião foi transportado pela fronteira com a Finlândia por dois agentes do MI6 na bagageiro do carro, mas não houve tempo para trazer a sua família.

Documentos de arquivo mostram que quando chegou ao Reino Unido, o desertor russo enviou a Margaret Thatcher uma mensagem pessoal a explicar que aceitou a decisão de o levar sozinho, mas que tinha «esperança que houvesse uma forma segura» de lhe devolver a família.

«Sem eles, a minha vida não tem sentido», escreveu.

«Tenho filhos, sei o tipo de pensamentos e sentimentos que passam pela sua cabeça todos os dias. Mas, assim como a sua preocupação é sobre eles, a deles é com a sua segurança e bem-estar», respondeu a primeira-ministra num tom suave.

«Por favor, não diga que a vida não tem sentido. Há sempre esperança. E faremos tudo o que for possível para o ajudar nestes dias difíceis», acrescentou.

Para que tal acontecesse, «nos bastidores», Margaret Thatcher ameaçou Moscovo de que caso a família não fosse libertada, haveria uma expulsão em massa de agentes do KGB em Londres.

O ultimato foi recusado, e Thatcher procedeu à expulsão de 25 suspeitos agentes do KGB, expostos por Gordievsky. Dias depois, vinte e cinco cidadãos britânicos foram obrigados a deixar a Rússia, onde se incluem dois homens que ajudaram na fuga do espião.

Temeu-se que este incidente diplomático viesse a agravar significativamente a tensão entre a URSS e o Ocidente, sendo que um dos documentos divulgados mostram que o embaixador britânico Bryan Cartledge advertiu a primeira-ministra de mais expulsões.
 
Apesar do alerta, o Reino Unido expulsou mais seis soviéticos, e a Rússia respondeu na mesma moeda com seis britânicos a serem forçados a deixar Moscovo, mas o conflito não passou daí.

A família do espião foi autorizada a partir para o Reino Unido em 1991, mas o casamento não durou muito tempo, e tanto a esposa como os filhos de Oleg Gordievsky voltaram para a Rússia.