Quase dois anos depois da tragédia da Maratona de Boston, nos Estados Unidos, começa o julgamento de Dzhokhar Tsarnaev.
 
Esta segunda-feira, o juiz, os procuradores e os advogados começam a selecionar os jurados. De uma lista de 1200 nomes, devem sobrar 12 efetivos e seis suplentes, responsáveis pela decisão do futuro do jovem de 21 anos acusado de, em conjunto com o irmão, ter detonado duas bombas junto da meta de uma das mais concorridas maratonas do mundo.
 

O que aconteceu?


O atentado aconteceu a 15 de abril de 2013. Dzhokhar Tsarnaev e o irmão mais velho, Tamerlan Tsarnaev, terão feito rebentar dois engenhos que mataram três pessoas e feriu mais de 260.
 
O pequeno Martin Richard, de oito anos, foi a primeira vítima mortal a ser identificada. A criança estava com a irmã e os pais a assistir à maratona. 



À Fox News, um vizinho da família contou que o pai de Martin, habitual corredor, estava lesionado e que, por isso, não correu a maratona. Antes da prova, a família tinha ido comer gelados e dirigiram-se depois para a linha da meta. Martin morreu na sequência das explosões, enquanto a mãe e a irmã ficaram feridas. 
 
Krystle Campbell, de 29 anos, era gerente de um restaurante na cidade e também morreu na sequência das explosões. Um estudante da universidade de Boston, de origem chinesa, foi a terceira vítima mortal.


 
As duas explosões no final da maratona de Boston terão sido causadas por panelas de pressão com metais dentro e escondidas em sacos tradicionais de ginásio, de acordo com fonte da investigação, citada pela Associated Press.


 

Momentos chave

 
Dzhokhar e Tamerlan viriam a ser identificados como suspeitos do atentado. Dois irmãos chechenos a viver nos Estados Unidos. Dzhokhar tinha 19 anos na altura e Tamerlan 26.
 
Depois de uma perseguição que envolveu um recolher obrigatório da população na região de Watertown, arredores de Boston, a polícia trocou tiros com os suspeitos e Tamerlan acabou por morrer. Dzhokhar ainda se manteve em fuga, escondeu-se num barco guardado no quintal de uma casa, mas acabou detetado pelos equipamentos de infravermelhos de um dos helicópteros da polícia e foi detido.


 
Antes de chegarem à zona de Watertown, os dois suspeitos mataram um polícia no Instituto de Tecnologia do Massachusetts (MIT) e efetuaram um assalto por carjacking. 
 
De acordo com a CNN, que citou fonte do FBI, Tamerlan Tsarnaev tinha sido interrogado pela polícia federal em 2011 por suspeitas de ligação a grupo extremista.


 
 

Quem é Dzhokhar Tsarnaev?

 
Tinha oito anos quando emigrou para os estados unidos e tornou-se um cidadão norte-americano em 2012. Estudava medicina. Os colegas de escola descreviam-no como «tão americano como nós».


 
O pai descreve-o como um jovem inteligente e esforçado. «Meu filho é um anjo. Está no segundo ano de medicina nos EUA. É um garoto esperto. Nós o esperávamo-lo aqui [no Daguestão, onde vive] nas férias», disse numa conferência de imprensa pouco depois dos atentados.
 
Terminou o liceu com distinção em 2011 e ganhou mesmo uma bolsa de 2500 dólares da cidade de Cambridge para estudar lá. Praticava desporto, nomeadamente luta greco-romana.
 
Horas depois da tragédia, Dzhokhar postou no Twitter: «Não existe amor no coração da cidade, protejam-se, pessoal».

No seu último post, antes de ser detido, descrevia-se: «Sou um tipo livre de stress».



Em agosto de 2013, a revista norte-americana «Rolling Stone» escolheu-o para capa. «O bombista» é o título da foto de Dzhokhar Tsarnaev, na altura preso e gravemente ferido.


Como vai ser o julgamento?


O mayor de Boston, Marty Walsh, disse, em declarações à ABC News, que o julgamento será «doloroso, mas necessário». «Muitas famílias vão exorcizar o que aconteceu naquele dia horrível», sublinhou.
 
Prevê-se um processo demorado para os padrões da justiça norte-americana. Só a seleção dos jurados deve durar cerca de um mês.
 
As testemunhas só devem começar a ser ouvidas em fevereiro e espera-se um veredicto e uma sentença só lá para o final da primavera ou para o verão.
 
Só a acusação nomeou cerca de 700 potenciais testemunhas e reuniu centenas de provas para serem analisadas em tribunal.
 
O julgamento deve processar-se em duas fases: a primeira que determina o veredicto (se Tsarnaev é ou não considerado culpado) e a segunda, se for considerado culpado, que determina então a sentença.


 
Analistas judiciais norte-americanos, citados pela imprensa, adivinham o comportamento de acusação e defesa: os primeiros devem apostar na descrição de um Tsarnaev como um homicida indiscriminado; os segundos devem apostar no retrato de um jovem vulnerável, altamente influenciável pelo irmão mais velho, que cresceu sob visões extremistas do Islão.

Inquirido judicialmente, em julho de 2013,  Dzhokhar Tsarnaev alegou inocência
 

O que espera Tsarnaev?


Dzhokhar Tsarnaev, agora com 21 anos, pode ser condenado à pena de morte. O estado do Massachusetts aboliu a pena de morte no início dos anos 1980 e a última execução aconteceu em 1947.
 
Mas Tsarnaev foi acusado pelo sistema judicial federal, que permite a pena de morte em 50 crimes, entre os quais a detonação de armas de destruição em massa, resultando em morte.
 
Ao todo, Dzhokhar Tsarnaev enfrenta 30 acusações diferentes, 17 das quais passíveis de serem punidas com pena de morte.
 
Os procuradores devem pedir a pena de morte, baseando-se na vulnerabilidade das vítimas e na «forma atroz, cruel e depravada de cometer o crime», de acordo com documentos judiciais citados pelo «The Boston Globe» (TBG).
 
Já a equipa de defesa deve argumentar a falta de tempo para se preparar para o julgamento e também o risco de imparcialidade, com a formação de um júri formado por habitantes da mesma cidade onde ocorreu o atentado.
 
Os resultados de uma sondagem divulgada pelo TBG apontam para uma sentença pouco favorável para Tsarnaev: 62 por cento dos habitantes de Boston são a favor da aplicação da pena de morte e só 29 por cento estão contra.
 
Tsarnaev enfrenta uma forte possibilidade de ser condenado à pena capital. Contudo isso só acontecerá com a unanimidade de opiniões dos 12 elementos do júri. Caso tal não aconteça, o juiz deverá intervir e converter a pena em prisão perpétua. A não ser que venha a ser considerado inocente, dessa pena, Tsarnaev não se deverá livrar.