Jose Salvador Alvarenga, de 36 anos de idade, esteve 14 meses perdido no mar e foi encontrado a 12.500 quilómetros do México, nas ilhas Marshall a 30 de janeiro de 2014. Agora, conta a sua história num livro escrito por Jonathan Franklin.

O jornal “The Guardian” publicou um excerto do livro “438 Days”, escrito por Jonathan Franklin, em que Alvarenga conta como sobreviveu depois de ele e o seu jovem colega de pescaria - Ezequiel Córdoba, de 22 anos - terem sido atingidos por uma tempestade, a 17 de novembro de 2012.

De acordo com o livro, ao longo dos 14 meses que esteve perdido no mar, Alvarenga teve de combater a solidão, a depressão, os pensamentos suicidas, as alucinações e os animais selvagens que o rodeavam no oceano.

Um dia depois de terem sido atingidos pela tempestade, Alvarenga tentou ignorar a água que sentia dentro do barco e ajudado por Ezequiel alinhar o barco com as ondas para que não naufragassem. 

O barco de Alvarenga ficou cheio de água e todo o material que nele viajava acabou por cair ao mar. Salvaram-se apenas a arca frigorífica, que serviu para os dois pescadores se abrigarem do frio e do sol, o GPS (avariado) e o rádio que se avariou horas depois.

Perante o cenário desolador, Ezequiel entrou em pânico, dizendo que o barco iria naufragar e que os tubarões os iam devorar. Alvarenga conseguiu manter a calma e mostrou-se decidido a continuar a navegar até que conseguissem encontrar ajuda.

Cerca das 9:00 do dia 18 de novembro, Alvarenga avistou o topo de uma montanha e percebeu que estariam apenas a duas horas de terra, quando o motor avariou. Por rádio, o pescador deu o alerta ao patrão, mas nem tudo correu pelo melhor.

- Willy! Willy! Willy! O motor avariou!
- Tem calma, homem, dá-me as coordenadas.
- Não temos GPS. Não funciona.
- Lança a âncora.
- Não temos âncora. (Alvarenga tinha notado que faltava a âncora, mas nunca pensou que fosse precisar dela)
- Ok, vamos buscar-te.
- Rápido, estou realmente tramado aqui.


Estas foram as últimas palavras de Alvarenga por rádio. A partir deste momento, a dupla ficou perdida no mar sem comunicações. 

Trabalhando como equipa, Alvarenga e Ezequiel decidiram devolver ao mar os 500 quilos de peixe que tinham pescado e que tornava o barco mais instável perante as ondas que enfrentavam. Depois, para tornar o barco mais leve, desfizeram-se do motor, do gelo e da gasolina extra. No final, juntaram esforços para tirar a água que tinha entrado no barco. 



Com o barco sem peso extra, era agora necessário arranjar comida para que conseguissem sobreviver até encontrar ajuda. Alvarenga conseguiu capturar alimento graças às maneiras engenhosas para capturar peixe, aves e até tartarugas. Juntos, os dois comiam o peixe que apanhavam e recolhiam água da chuva para terem o que beber. Quando esta escasseava, os dois pescadores bebiam a própria urina ou o sangue de tartarugas.
 

"Estava com tanta fome que até comia as próprias unhas. Engolia todos os pedacinhos", conta Alvarenga.


No entanto, ao fim de dois meses em alto mar, Ezequiel acabou por sucumbir à depressão e ficar doente, recusando-se a comer e a beber. Alvarenga insistia, chegando mesmo a alimentar o companheiro à boca, com pequenos pedaços de comida, para que este não sucumbisse.

Os dois homens chegaram mesmo a fazer um pacto. Se Córdoba sobrevivesse, viajaria para El Salvador para conhecer os pais do colega. Se Alvarenga saísse vivo, ele iria até Chiapas, no México, para encontrar a mãe do colega.

"Ele pedia-me para pedir desculpa à mãe dele por não lhe dizer adeus e para lhe dizer que ela o devia esquecer, que ele agora ia estar com Deus”.


Um dia de manhã, o colega de Alvarenga acabou por desistir.
 

"Estou a morrer, estou a morrer. Estou quase a partir".

 "Não penses nisso, vamos mas é dormir uma sesta”.

“Estou cansado, quero água”.


Alvarenga procurou uma garrafa de água e quando deu a Ezequiel este acabou por morrer nos seus braços.

“Não me deixes! Tens de lutar para viver! O que vou fazer aqui sozinho?”


Para lidar com a solidão, Alvarenga começou por fingir que o colega não tinha falecido e conversava com ele, fazendo as perguntas e dando as respostas.



Durante seis dias, o corpo do companheiro no barco ficou no barco, uma vez que não tinha coragem para o deitar ao mar e medo de não aguentar a solidão.

"Primeiro, lavei-lhe os pés. Depois despi-o, pois a roupa dele era necessária. Vesti a camisola que ele tinha, vermelha e com pequenos desenhos, e atirei-o à água. Enquanto o fazia, acabei por desmaiar”.


Quando acordou, era apenas ele e o mar. Aterrorizado, Alvarenga questionou-se o que iria fazer sozinho, sem ninguém para conversar.

“Porque morreu ele e não eu? Fui eu que o convidei a pescar. Culpo-me pela sua morte”, contou Alvarenga.


O desejo de viver e o medo do suicídio (a mãe tinha-lhe garantido que aqueles que se matam nunca chegam ao céu) fizeram-no continuar a procurar soluções para continuar vivo.

Até que avistou terra. Inicialmente pensou que se tratava de mais uma alucinação como as que tinha tido nos últimos meses, mas rapidamente chegou à conclusão de que não era uma miragem. 

Quando se encontrava perto da ilha, atirou-se à água e nadou até chegar a terra firme. Foi encontrado por Emi Libokmeto e Russel Laikidrik que o acolheram em sua casa.

“Mesmo sabe não eles não me entenderiam, eu falei e falei e falei. Quanto mais falava, mais eles se riam. Eu não sabia porquê. Eu ria-me porque estava a salvo”.




Era dia 30 de janeiro de 2014. Jose Salvador Alvarenga estava a salvo. A sua longa viagem tinha terminado.
Os médicos, do Hospital de Majuro, que o acompanharam desde que foi resgatado, mantiveram-no na ilha por 11 dias, uma vez que o pescador estava muito desidratado.

Durante uma breve conferência de imprensa, José Salvador Alvarenga agradeceu “ao governo das Ilhas Marshall por tudo” o que fizeram por ele e, também, “aos amigos” que apoiaram. 

A 10 de fevereiro de 2014, Alvarenga foi levado para El Salvador, onde finalmente se reencontrou com a família. 
Durante meses, Alvarenga permaneceu em choque, com medo profundo de água, a precisar de companhia constante e de dormir com as luzes acesas.

Apensa um ano depois, o pescador conseguiu examinar os mapas que mostraram a sua viagem de 438 dias à deriva no Oceano Pacífico. 

"Sofri fome, sede e solidão extrema e, mesmo assim, não terminei com a minha vida. Só tens uma oportunidade para viver... Tens de a aproveitar”.