O jornalista espanhol Javier Espinosa, do «El Mundo», que foi refém do Estado Islâmico, revelou que o fotojornalista norte-americano James Foley podia ter fugido, mas decidiu não o fazer para não abandonar o amigo e também refém dos jihadistas, o fotógrafo britânico John Cantlie.

Espinosa conta que Foley, decapitado pelos extremistas em agosto de 2014, e Cantlie, que, ao que tudo indica, se mantém vivo em cativeiro, tentaram fugir duas vezes.

«Foley e Cantlie tentaram escapar duas vezes. A primeira vez foi um fracasso mesmo antes de começar. A segunda, o jornalista norte-americano demonstrou uma profunda humanidade. Depois de ter conseguido fugir do quarto onde estava preso, tinha de esperar por Cantlie. Mas Cantlie tinha sido apanhado por um guarda. Foley podia ter fugido sozinho, mas decidiu entregar-se.»


Segundo o jornalista, Foley afirmou que «não podia deixar John por sua conta». Foley e Cantlie sofreram na pele as consequências: os extremistas torturaram-nos de forma particularmente violenta por terem tentado fugir.

Tudo isto aconteceu num complexo industrial em Alepo, na Síria, o local onde os reféns estavam presos, em cativeiro. Os extremistas queriam que fosse uma espécie de Guantánamo islâmica. Para  Espinosa, que era o preso número 43, os jihadistas eram verdadeiros «psicopatas» 

Ali, os rebeldes agrediam, torturavam e até ensaiavam as decapitações.  Espinosa recorda os três guerrilheiros que ensaiavam estes atos bárbaros: os reféns chamavam-nos de «The Beatles». 
  
As revelações de Espinosa constam numa série de artigos que começaram a ser publicados pelo jornal «El Mundo» este domingo. Trata-se da experiência vivida por um refém do Estado Islâmico na primeira pessoa, com pormenores até agora desconhecidos.

Espinosa e o fotógrafo, também espanhol, Ricardo Garcia Vilanova, foram libertados em Março de 2014. Tinham sido capturados na Síria em setembro de 2013. 

O jornalista explicou que só agora, quase um ano depois da sua libertação, é que decidiu revelar detalhes da sua experiência porque tinha sido ameaçado pelos extremistas de que se o fizesse reféns iam ser executados. 

Para o espanhol, o momento de revelar ao mundo como é ser refém do grupo extremista finalmente chegou, uma vez que 15 reféns do seu grupo já foram libertados, seis foram executados, e uma voluntária de uma associação humanitária dos EUA, Kayla Mueller, morreu num bombardeamento.  O paradeiro de Cantlie não é claro, mas um vídeo recente dos jihadistas sugere que o britânico ainda pode estar vivo.