«Graças aos nossos esforços diplomáticos, o Mundo manteve-se connosco e juntaram-se a nós nesta negociação as principais potências internacionais: o Reino Unido, a França, a Alemanha, a Rússia, a China e a União Europeia. Há cerca de um ano, tomámos o primeiro passo rumo ao que atingimos hoje, com vista a um acordo que trave o crecimento do programa nuclear iraniano e o adapte a áreas chave»
BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos


«Se a outra parte honrar as suas promessas, nós honraremos as nossas»
HASSAN ROHANI, Presidente do Irão


«Gostaria de ver os EUA e os «5+1» a obter um melhor acordo com o Irão. Ainda vão a tempo»
BENJAMIN NETANYAHU, primeiro-ministro de Israel


O Irão nuclear pode ter deixado de ser uma das principais ameaças da realidade internacional.

O acordo de Lausanne, obtido na passada sexta depois de uma longa negociação (especialmente intensa nas últimas semanas, com empenhamento direto do secretário de Estado norte-americano John Kerry e do seu homólogo iraniano, Javad Zarif), deverá ficar como um dos grandes marcos dos «achievements» em política externa dos EUA.

A obtenção de um acordo nuclear global, que garantisse que o Irão suspendesse o seu programa de enriquecimento de urânio, a troco do alívio das sanções impostas a Teerão, era uma das grandes prioridades da reta final da presidência Obama.

Ainda não está tudo garantido (até 30 de junho, terá que ser redigido um texto final do acordo Irão/potências internacionais), mas essa conjunção (suspensão da escalada do programa nuclear iraniano a troco do alívio de sanções) parece estar já garantida, tendo em conta as reações globalmente positivas das partes que se sentaram à mesa na Suíça, nas últimas semanas. 

Vitória política e diplomática indiscutível para Barack Obama (que nos últimos meses somou Cuba e Irão em acordos de dimensão histórica só possíveis pela sua liderança), sendo que, desta vez, não se tratou de mero entendimento bilateral entre os Estados Unidos e outro país.

O problema do Irão tem extensões mais vastas e envolveu todos os grandes poderes do Mundo atual. De tal modo a ameaça era abrangente que colocou Rússia e China, principais rivais dos EUA em muitos outros temas, envolvidas de forma progressivamente mais clara, quando a perspetiva de acordo se foi desenvolvendo, nos dias finais da negociação.

Até 30 de junho há arestas a limar, para que se chegue a um acordo final sublimado em texto escrito, assinado por todas as partes.

Israel e mundo árabe olham de lado

O acordo é histórico mas está longe de ser consensual.

Em Telavive, o governo israelita, com relação muito tensa com a Administração Obama, não gostou do que saiu de Lausanne: «Gostaria de ver os EUA e os «5+1» a obter um melhor acordo com o Irão. Ainda vão a tempo», apontou Netanyahu, agora reforçado internamente.

Dianne Feinstein, senadora democrata da Califórnia, reagiu, em defesa do que a diplomacia americana obteve: «O primeiro-ministro israelita disse o que tinha que dizer e, sinceramente, acho que isso pode virar-se contra ele». 

Uma parte do mundo árabe, com os sauditas (aliados principais dos EUA na região) na linha da frente, temem que o acordo de Lausanne abra uma nova etapa na relação EUA/Irão, terminado em definitivo com as tensões dos últimos 35 anos.

Perante o inimigo comum (o «Estado Islâmico» feito de jiadistas sunitas), EUA e Irão, agora aproximados pelo acordo de Lausanne, são um «gamechanger» inquietante para sauditas e israelitas, sobretudo.

O aviso de Obama ao Congresso: não estraguem isto

Tem sido frequente nos anos Obama, mas desta vez foi feito com particular veemência: o Presidente dos EUA fez aviso sério ao Congresso de maioria republicana -- não estraguem isto.

«Se o Congresso matar este acordo, de forma não baseada na análise e sem oferecer qualquer alterantiva razoável, então serão os Estados Unidos a serem culpados pelo falhanço da sua diplomacia. A comunidade internacional vai colapsar e o caminho será muito estreito. O povo americano sabe disso e é por isso que dou suporte sólido a uma resolução diplomática para a questão nuclear iraniana», exortou o Presidente dos EUA.

Não é essa a visão de muitos setores conservadores, aqui representados pelo comentário de Charles Krauthammer na FOX: «Basta ver as reações de contentamento do ministro dos negócios estrangeiros do Irão no momento do acordo. Eles foram muito pouco claros sobre os pressupostos. É possível que quando assinarem em junho, já beneficiem de uma enorme quantidade de sanções aliviadas. E quando Obama fala de levantar as sanções, se os iranianos estiverem a fazer batota, não voltará a a haver a hipótese de russos, chineses e europeus voltaram a impor sanções outra vez. Vamos agir sozinhos, estaremos completamente isolados».

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»