Foi há um ano, em agosto de 2012, que Barack Obama traçou a «linha vermelha» para o conflito que há dois anos destrói por completo a Síria. O presidente norte-americano colocou o uso de armas químicas como o limite para uma posição mais robusta, como o envio de tropas, por parte da comunidade internacional que aparentemente, apenas, assiste à matança mais ou menos diária.

Desde então, a administração Obama já chegou a admitir, em Junho deste ano, que a «linha vermelha» tinha sido ultrapassada quando em março chegou uma primeira denúncia do uso de armas químicas. O limite tinha alegadamente sido ultrapassado, mas a falta de evidências adiou qualquer decisão da Casa Branca. Esta quarta-feira, porém, a realidade parece ter saltado as fronteiras do país e aterrado nas manchetes dos jornais e um pouco por toda a Internet. A confirmar-se, hoje foi o dia em que o mundo viu o maior ataque químico desde que Saddam Hussein matou milhares de curdos, há 25 anos.

As imagens chocantes de corpos, sobretudo de crianças, sem vida, sem ferimentos, mortos por sufocação, parecem começar a deixar poucas dúvidas sobre o uso de armas químicas. O número de mortos ainda não foi confirmado por fontes independentes, mas os rebeldes falam em 1400 vítimas mortais, contra 200 a 500 admitidos por fontes do exército.

A França e o Reino Unido pediram já o acesso imediato dos inspetores da ONU, que estão no terreno há três dias para investigar o uso destas armas, ao local do ataque desta quarta-feira, defendendo que se a Síria não tem nada a esconder, deve colaborar. «Nós esperamos que a equipa da ONU em Damasco tenha acesso imediato e ilimitado a esta área para que a verdade possa ser estabelecida. Não há nenhuma razão para que o acesso não seja concedido, uma vez que não é assim tão longe do local onde eles estão a trabalhar», disse o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros britânico, William Hague, em Paris. «Eu espero que isto tenha despertado aqueles que têm apoiado o regime de Assad para a sua natureza assassina e bárbara», disse, ainda.

Também o ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Ahmet Davutoglu, considerou que tendo em conta as imagens emitidas era claro que a Síria tinha usado armas químicas e exigiu a imediata investigação da ONU. O Ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, considera que o ataque químico pode ser uma provocação, uma vez que está no terreno uma equipa das Nações Unidas para avaliar precisamente se os agentes químicos estão ou não a ser usados e quem está a usá-los contra a população.



A Casa Branca manifestou uma forte preocupação sobre o eventual uso de armas químicas e também pede que os investigadores no terreno apurem o que aconteceu, uma vez que o mandato que possui tem precisamente este âmbito. «Os EUA estão profundamente preocupados com os relatos que centenas de sírios foram mortos num ataque das forças governamentais da Síria, incluindo o uso de armas químicas, perto de Damasco, hoje. Pedimos formalmente que a Nação Unidas investigue urgentemente esta nova alegação. A equipa de investigação das Nações Unidas, que já está na Síria, está preparada para fazer isso, e que seja consistente com seu propósito e mandato», afirmou Josh Earnest num comunicado.

As forças armadas sírias não negam os ataques, mas garantem que não foram usadas armas químicas. «Isso são mentiras e propaganda de terroristas», disse um oficial sírio. «Nós não usaríamos essas armas».

O Conselho de Segurança das Nações Unidas reunido esta quarta-feira pediu a clarificação do uso de armas químicas, mas não exigiu uma recolha de provas no terreno, dada a oposição da Rússia e da China. Uma tomada de posição mais dura não será para já, mas o ultrapassar da «linha vermelha» com uma visibilidade global colocou, consideraram alguns especialistas internacionais, a administração Obama «encostada à parede».

Notícia atualizada às 23:30



Nota: Galeria de imagens com conteúdo chocante