A canadiana Miranda Scott tinha 18 anos e fazia exercício numa elíptica no ginásio da universidade quando caiu no chão e morreu. Miranda foi uma das 23 jovens que desde 2007 morreram, no Canadá, por suspeita de complicações com a toma das pílulas Yaz e Yasmin. A notícia está a ser avançada pela imprensa canadiana que cita documentos do Departamento de Saúde. As pílulas Yaz e Yasmin são duas das mais comuns no mundo. Em Portugal e na Europa, os perigos foram revistos, mas as autoridades concluíram que os benefícios são superiores aos riscos.



A causa das mortes dos casos referidos está relacionada com a formação de coágulos sanguíneos. Em 2011, um estudo da FDA, a agência norte-americana de medicamentos, referia que as pílulas contracetivas Yaz e Yasmin, do laboratório alemão Bayer, pareciam aumentar o risco de coágulos sanguíneos em maior proporção que os contracetivos orais mais antigos. As pílulas são muitas vezes apelidadas de pílulas da nova geração e incluem uma progestina sintética, a drospirenona, que é exclusiva da Bayer.

A autópsia a Miranda Scott, que morreu em 2010, revelou que a jovem sofreu uma embolia pulmonar e uma coagulação intravascular disseminada, reforçando a convição de Chip McClaughry, mãe de Miranda, de que foi a pílula que matou a filha. McClaughry juntou-se às centenas de mulheres canadianas que subscreveram uma ação judicial, já aceite, contra a Bayer que alega que as pílulas aumentam o risco de efeitos secundários, nomeadamente os coágulos sanguíneos.

Nos EUA, a empresa já pagou milhões para resolver milhares de processos. Sobre as revelações no Canadá, a empresa disse à CBC News que continua a defender os seus produtos e que já recorreu da decisão de validação da ação judicial, alegando que não existe matéria de facto para o caso prosseguir na justiça. A Bayer deverá comparecer em Tribunal, em Ontário, no próximo dia 4 de setembro.

Segundo a documentação agora revelada, entre 2007 e fevereiro de 2013, no Canadá, médicos e farmacêuticos reportaram 600 reações adversas e 23 mortes relacionadas com as pílulas Yaz e Yasmin. Mais de metade das vítimas mortais eram mulheres com menos de 26 anos, a mais nova tinha 14 anos. A maioria das mortes ocorreram pouco depois do começo da toma das pílulas, tal como aconteceu com Miranda que tomava o contracetivo oral apenas há um mês.

Os advogados envolvidos nas ações legais afirmam que as mortes causadas podem ser mais, uma vez que muitos clínicos não estão ainda alerta para os perigos das pílulas. Em Portugal, fonte do Infarmed, explica estes efeitos secundários «são há muito conhecidos» pela classe médica. «É preciso ter em conta que as pílulas são tomadas por milhões de mulheres que não sofrem efeitos. Sabe-se, desde há anos, que as pílulas combinadas acarretam um risco muito raro de tromboembolismo venoso e que é preciso avaliar se nos casos referidos a pílula era a adequada», acrescenta.

Esta não é a primeira vez que os perigos das pílulas de 3.ª e de 4.ª geração são associadas a mortes. Em janeiro deste ano, a agência de medicamentos francesa relacionou a pílula Diane 35, também comercializada pela Bayer, a quatro mortes por trombose venosa, depois de uma investigação que começou com a denúncia de uma jovem vítima de um acidente cardiovascular cerebral. A Agência Europeia do Medicamento (EMA) decidiu então rever os dados de segurança dos contracetivos orais e em maio concluiu que os benefícios da pílula superam os riscos associados de desenvolvimento de coágulos de sangue.



O Infarmed esclarece ainda que «os contracetivos orais combinados têm sido alvo de uma monitorização intensiva pelos sistemas de farmacovigilância nacionais, pelo que não existem razões para as mulheres pararem de tomar o seu contracetivo, mas em caso de dúvida, devem discutir este assunto com o médico assistente».