Katty Moreira é uma venezuelana em Portugal com o coração em Caracas. É de cá que sofre pelo país de onde foi obrigada a sair para poder viver sem medo. Filha de pais portugueses, estudou em Portugal, mas viveu os últimos dez anos na Venezuela. Com uma bebé nos braços saiu para viver em segurança e ao tvi24.pt fala dos medos de quem por lá ficou.

«Até ontem pensei que não existia medo de falar, que existia vontade de denunciar, porque os países internacionais não estão a par do que se passa na Venezuela», conta a luso-descendente de 39 anos. «Mas julgo que sim, existe esse medo na comunidade portuguesa, até porque os portugueses e os árabes são os principais alvos dos sequestros.»

Um medo que admite ser de «represálias» do governo, mas sobretudo da violência urbana. Hoje mais do que ontem. «O maior receio são os assaltos. Eu vim embora porque não sentia liberdade para sair à rua depois das seis da tarde. Na Venezuela, vive-se sempre a olhar por cima do ombro, com medo de ver os garotos com facas ou armas a ameaçar. Ainda hoje, cá em Portugal, olho por cima do ombro».

Katty sabe que o medo não é de agora, mas depois da morte de Chávez a situação deteriorou-se. «Com Maduro piorou muito. O que se especula é que não é Maduro que está a mandar, é Cuba que está a governar. Vê-se em muitas coisas, até na maneira de falar. É o fascismo que está a ser implementado».

«A Venezuela está a morrer como país democrático. A Venezuela não é um país democrático», diz.

A luta é assim pela democracia. Nas ruas de Caracas, milhares saíram em «marcha» na última quarta-feira, mas o balanço do protesto acabou por ser trágico: três mortos e mais de 20 feridos. «Os venezuelanos começaram por marchar com optimismo, na esperança de fazer alguma coisa pelos que foram presos injustamente, mas acabou por haver disturbios», conta Katty que considera o bloqueio à informação outro dos principais problemas do país.

O canal de cabo colombiano, NTN24, que transmitia informação não censurada, foi bloqueado durante as manifestações. «Só pelas redes sociais é que é possível ter acesso a alguma informação, mas mesmo assim nem sempre», afirma.

«Com Maduro aconteceu ainda mais o desrespeito pela Constituição, a inflação tem sido assustadora e há uma constante violação da liberdade de expressão. Não há respeito por nada.»

Katty admite que a Venezuela é um país divido entre os que apoiam o governo e os que estão contra, mas lembra que são as classes baixas «compradas» com eletrodomésticos ou alimentação que formaram a base de apoio. «Há manipulação nas eleições, mas penso que com Maduro a base de apoio já desceu. Chávez era um líder, Maduro não é».

A imposição de Maduro no cargo de presidente e o défice de liderança em relação a Chávez apontam o caos político e social, mas a venezuelana considera que a questão já é mais profunda.

«Os protestos de agora são mais intensos. O venezuelano está a chegar ao limite. Não há comida, não há bens essenciais. Os doentes oncológicos não têm acesso aos medicamentos. Não se trata só de Maduro não ser um líder, trata-se de não existirem bens essenciais. A Venezuela está um caos», conta, amargurada, confessando que não sabe que caminho poderá estar destinado ao seu país, admitindo apenas, que será certamente «longo».

Cansada, apela ao mundo.

«Quando estava na Venezuela sentia-me muito desprotegida. A nossa voz não chegava à comunidade internacional, muito também porque os países da América Latina apoiavam Chávez. Com Maduro ainda não se pronunciaram, espero que seja mais fácil virem a fazê-lo».

Para Katty, o gatilho para os últimos protestos foi a morte da ex-miss venezuelana. Mónica Spears e o marido morreram baleados por ladrões numa estrada do país. «Mexeu muito com as emoções. Foi um grande sentimento de revolta, de indignação», diz, ela que traz na voz o peso de um povo, porque isto, de revoluções, regimes e pátrias, também é levado para a frente com a força do coração.