Apenas há algumas semanas atrás a Praça Altamira, em Caracas, estava a abarrotar com milhares de estudantes que lutavam pelo fim de Nicolas Maduro. Hoje, apenas algumas dezenas de ativistas permanecem na espaçosa praça de 1940, apinhada agora de posters, fotos de estudantes mortos, cruzes e flores.

«Maduro ainda quem está, não está? Então, estão também os nosso problemas. Ele não foi como nós queríamos», conta a Reuters, o estudante Eduardo Ortega, um dos que ficou para trás e pinta num lençol a palavra: «Resistência».

«As pessoas fartaram-se. A sociedade civil não nos apoiou e os estudantes estão divididos. Mas isto ainda não acabou. Nós vamos para uma segunda fase, vocês vão ver», insiste, depois de em fevereiro, milhares de estudantes terem tomado as ruas sonhando com uma «Primavera Venezuelana», que tirasse o poder ao escolhido de Hugo Chavéz e acabasse com 15 anos de socialismo.

Mas aqui, a primavera não floriu. Os milhares que saíram às ruas não se transformaram em milhões, como no Egito ou na Ucrânia, os chefes militares não trocaram de lado e o entusiasmo não contagiou os pontos chaves da classe média.

Esta quinta-feira, as forças de segurança venezuelanas expulsaram centenas de ativistas que ainda estavam acampados em espaços públicos em protesto contra o Presidente Nicolas Maduro, num golpe final para extinguir os movimentos de protesto que ameaçaram o regime.



As tropas atacaram ao amanhecer para apanharem os manifestantes desprevenidos e assim destruir os acampamentos decorados com bandeiras venezuelanas e frases de protesto. Um dos acampamentos ilegais foi instalado no meio de um cruzamento de uma das principais avenidas de Caracas, bloqueando, há semanas, o trânsito.

O ministro do Interior, Miguel Rodriguez disse que os soldados prenderam 243 pessoas. Os estudantes estão acusados de usar os acampamentos como base de operações para planear protestos violentos em diferentes locais da cidade. «As tropas apreenderam drogas, armas, explosivos, tudo coisas que eles estavam a usar todos os dias para confrontar as forças de segurança», disse o ministro na televisão estatal.

Os protestos diários, que durante fevereiro e março mancharam as ruas com nuvens de gás, barricadas de pneus e lixo em chamas, parecem ter diminuído com a perceção, por parte dos que estão contra o regime, de que Maduro dificilmente sairá do cargo que ocupa. Mesmo que à força, mesmo que com as ruas incendiadas em protestos.

Um baixar de braços que ainda assim não deixa esquecer as 41 pessoas que já perderam a vida nos confrontos, segundo os dados oficiais, e os quase 800 feridos. Pelo menos três mil pessoas foram detidas desde fevereiro, a que se juntam agora, na «última limpeza» desta quinta-feira, pelo menos mais 450 detidos.

Francia Cacique, de 24 anos, a líder de um dos acampamentos, classificou as operações como ilegais e negou que os estudantes estivessem a conspirar para realizar atividades subversivas. «Eles vieram com a desculpa de drogas e armas, o que é totalmente falso», disse a jovem à Reuters, por SMS, adiantando que os jovens estão detidos na base militar de Caracas e que ela própria escapou à detenção.

«Eu peço ao mundo que nos ajude e perceba que isto é uma ditadura!».

Esta manhã, depois do ataque na madrugada, as tropas estavam a recolher os destroços daquelas que foram as casas de estudantes de todo o país que ali viveram, falando e gritando slogans como «Maduro, assassino». Em fevereiro, foram estes os jovens que invadiram as ruas e exigiram a demissão do Presidente, protestando contra os preços inflacionados, a crónica falta de produtos e os abusos das forças de segurança.

Durante os raides da madrugada, os moradores vizinhos dos acampamentos mostraram-se indignados com a operação policial e as detenções. Os venezuelanos, que foram acordados às 3:00 da manhã, bateram panelas e frigideiras ao ritmo de um último e possível protesto.