O desaparecimento do Boeing 777 da Malaysia Airlines, no passado dia 8 de março, é já um dos maiores mistérios da história da aviação.

O que terá acontecido ao voo MH370, que descolou do Aeroporto de Kuala Lumpur, às 00.41h locais, e nunca chegou ao destino, que seria Pequim, às 6.30h da capital chinesa?

A bordo iam 239 passageiros, de 14 nacionalidades diferentes, além de elementos da tripulação.

Mark Weiss, antigo piloto da American Airlines, dirige a equipa de aviação civil do Spectrum Group, empresa baseada em Washington DC.

Este especialista norte-americano em aviação conhece a fundo a operação de investigações e buscas do voo MH370 da Malaysia Airlines, misteriosamente desaparecido.

A experiência de 20 anos a comandar um Boeing 777 em tudo idêntico ao do voo MH370 leva-o a apontar para uma hipótese de «algum tipo de luta ter acontecido no cockpit», muito provavelmente provocada por um ou mais intrusos. E a afastar cenários de acidente, explosão ou incêndio, porque «havia várias formas de pedir ajuda e isso não foi feito».

Weiss já recebeu «cartas e emails» com teorias mirabolantes, mas quanto mais pensa e investiga o assunto mais se inclina para a conclusão de que «houve intervenção humana» no desvio e desaparecimento do aparelho.

Entrevista exclusiva ao tvi24.pt, feita por Skype, no passado sábado.

Dois meses depois do voo MH370 ter descolado de Kuala Lumpur e nunca ter chegado a Pequim, o que pode ter acontecido aquele avião?

Antes de tudo, trata-se de uma tragédia humana de enormes dimensões. Afeta centenas de famílias, de vários países. Os meus primeiros pensamentos vão para essas pessoas, que têm passado por um sofrimento inimaginável nos últimos dois meses. Não só pela perda dos seus entes queridos, mas também pela falta de informação.

E em concreto sobre o que se poderá ter passado: inclina-se para a tese de acidente, incêndio e/ou explosão a bordo, atentado ou outra possibilidade?

Vamos começar por definir o que sabemos. Em primeiro lugar, sabemos que o avião descolou de Kuala Lumpur. Depois, sabemos que tinha Pequim como destino e que nunca chegou a esse destino. Na verdade, sabemos pouco mais do que isso, mas sabemos mais algumas coisas. Sabemos que já depois de ter desaparecido dos radares, o avião voou oito horas. E sabemos também que ele sofreu duas alterações de rota. Sabemos que ele descolou de Kuala Lumpur e que menos de uma hora depois desapareceu dos radares.

E também sabemos que a última indicação dos pilotos foi «Está tudo bem, boa noite»...

Sim, foi emitida uma última transmissão ACARS (nota: sinal comunicado entre os computadores de bordo do avião para os computadores do controlo em terra), uns 25 minutos depois da descolagem e poucos minutos depois desse sinal há essa comunicação dos pilotos.

Um incêndio ou uma explosão a bordo, decorrente por exemplo da quebra de uma janela, poderá ser uma das explicações mais plausíveis?

Não me parece. Insisto: ninguém sabe o que se passou, mas podemos trabalhar em alguns cenários. Pensemos então nessa possibilidade. Falei com vários especialistas que estão envolvidos nas investigações, trocámos ideias sobre isso. Não há qualquer sinal que tenha havido uma explosão a bordo. Não há um histórico nos radares, não houve qualquer pedido de ajuda da tripulação. A minha experiência em pilotar um Boeing 777 é a de que um comandante tem várias opções. Tenho dificuldade em imaginar uma situação de perigo iminente, na sequência de um incêndio, ou explosão no avião, e que não haja qualquer sinal disso.

Mesmo com o desaparecimento dos radares?

Sim, mesmo assim. Se tivesse havido um incêndio ou uma explosão no avião, haveria algum tipo de registo disso. E não há nada.

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