As últimas semanas foram propícias a identificar as contradições por que passam os Estados Unidos neste arranque de segundo mandato de Barack Obama.

Numa altura em que o medo do terrorismo volta a estar na ordem do dia, a indicação do Departamento de Estado de retirada nas embaixadas e consulados americanos em mais de duas dezenas de representações diplomáticas no Médio Oriente e no norte de África recorda-nos que os EUA continuam a ser um país especial.

Esta jogada de antecipação (decorrente de alertas sérios retirados após escutas detetadas entre membros da Al Qaeda, e que apontariam para um atentado em larga escala que estaria a ser preparado contra interesses americanos) recorda-nos também que aquilo que o «caso Snowden» parecia ter demonizado é, afinal, um ponto essencial no equilíbrio do Mundo em que vivemos.

Sem um acesso alargado a escutas, não seria possível antecipar este tipo de riscos. Pode não ser muito agradável lembrar isto: mas é fundamental percebermos que as coisas são como são.

Os tempos, em Washington, são de profundo pragmatismo.

O modo cooperativo como a comissão bipartidária de serviços secretos do Senado tem trabalhado mostra responsabilidade. Ainda na frente externa, o anúncio do secretário de Estado norte-americano, John Kerry, de que o programa de ataques com drones será terminado «em breve» era o sinal que faltava para a nova etapa de «retraimento» da posição dos EUA nas sua intervenções militares.

A saída do Iraque está perto do fim, a retirada do Afeganistão em marcha (com esse novo sinal de que até os ataques com drones vão terminar).

A aposta no «soft power» é especialmente reforçada com o retomar do processo de paz israelo-árabe.

Mesmo com um grau de expetativas baixo (o registo anterior é suficientemente frustrante para se pensar de outra forma), a Administração Obama -- com John Kerry à cabeça e Martin Indyk (antigo embaixador em Israel) como principal negociador -- quis mostrar que os EUA continuam a ser o «player» indispensável num conflito de tamanha complexidade.

Com pouca vontade para arriscar vidas dos seus efetivos «overseas», e com um foco cada vez mais virado para a frente económica interna, o Presidente Obama assesta baterias para dentro das suas fronteiras, numa preocupação de construir uma América mais moderna, que seja capaz de transformar a falência de Detroit numa oportunidade de agarrar os desafios dos próximos anos: conversão tecnológica, independência energética, inovação.

A América é, hoje, o mesmo país onde uma cidade (Detroit) vai à falência, e outra (Houston) consegue bater recordes de exportação. A aposta na produção petrolífera e nas novas energias está a mudar profundamente as prioridades políticas e económicas de Washington.

Podemos achar que os EUA contam cada vez menos. Mas ainda não conseguimos provar que se consiga fazer alguma coisa de relevante sem os Estados Unidos. Enquanto assim for, Washington pode continuar a ter esta prioridade política na sua frente interna, porque a sua política externa será, por definição, incontornável.

Num Mundo com tantas incógnitas e indefinições, valha-nos essa certeza.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»