«As velhas soluções de mais armas e mais intervenções não serão aceites numa Europa já habituada à paz»

Barack Obama, artigo publicado em 1983, então estudante na Universidade de Columbia

«Obama tem que equacionar a hipótese nuclear contra Putin. A única forma de travar um mau tipo com armas nucleares é um bom tipo com armas nucleares»

Sarah Palin, ex-governadora do Alasca e «tea party darling»

Barack Obama tem tentado ser o Presidente do realismo, da redução de efetivos e da desnuclearização.

Em Praga, há quase cinco anos, corria o mês de abril de 2009, ainda em ambiente de início de primeiro mandato, anunciou o caminho para «um Mundo sem armas nucleares».

Considerado como «irrealista», esse discurso apontaria, no entanto, o arranque para a assinatura de um novo Tratado Start, com a Rússia (então presidida por Medveded, mas controlada politicamente por Putin), precisamente um ano depois (abril de 2010), e também na capital checa.

Esse acordo, posteriormente ratificado no Senado dos EUA com 81 votos a favor e só 18 contra, previa uma forte redução do arsenal nuclear dos dois maiores poderes (americano e russo).

A visão de Obama sobre a «contenção» da grande ameaça nuclear estava clara. Começou nessa primeira fase da sua presidência com o histórico acordo com a Rússia e prosseguiu, por exemplo, na gestão do problema sírio, ao colocar como «red line», que legitimaria uma eventual intervenção militar contra o regime de Assad, a utilização de armas químicas contra população civil.

A efetivação da redução nuclear, não estando em perigo, passou para segundo plano no último ano, com as divergências crescentes entre Obama e Putin em grandes temas como a Síria ou, agora, a Ucrânia.

Mas manteve-se como pilar fundamental da visão Obama para o que deve ser a «contenção» da grande ameaça iraniana, por exemplo. Os passos dados entre o Presidente dos EUA e o novo líder surgido em Teerão (Rohani) voltaram a mostrar que, em Washington, continua a haver forte vontade política de colocar a «desnuclearização» no topo das prioridades de política externa.

A questão pode parecer relativamente óbvia para os nossos parâmetros de leitura. Mas mesmo na política interna americana, está longe de ser um consenso. Basta olhar para o que disse Sarah Palin, antiga governadora do Alasca e ícone da direita radical americana, no recente CPAC. A ex-candidata a vice-presidente sentenciou: «A única forma de travar um mau tipo com armas nucleares é um bom tipo com armas nucleares».

«Contenção» será o termo adequado para definir a estratégia do atual presidente americano, para reduzir a necessidade de acionar o poder bélico dos EUA. James Traub, em excelente artigo na «Foreign Policy», resume, em alusão à crise da Crimeia: «Obama vai permitir que Putin ganhe a batalha, assegurando que o Ocidente vencerá a guerra».

Uma crítica que se faz a um líder político de um grande país é a de que mudou as suas posições fundamentais depois de chegar ao poder.

Não deixa, por isso, de ser interessante olhar para o que Barack Obama, então com 21 anos, escreveu na revista da Universidade de Columbia, em artigo intitulado «Breaking de The War Mentality», a 10 de março de 1983, há 31 anos e uma semana: «Em 1933, o «establishment» alemão pensava que podia usar Hitler para restaurar o módico de ordem perante uma Weimar confusa e anárquica. Na verdade, Hitler reforçou o «establishment» alemão, mas não exatamente no modo como banqueiros e homens de negócio gostariam; e agora, cinquenta anos depois, é claro quem estava a usar quem (...) As velhas soluções de mais armas e mais intervenções não serão aceites numa Europa já habituada à paz».

O artigo pode ser lido em http://documents.nytimes.com/obama-s-1983-college-magazine-article#p=1

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»