A «destruição do Estado Islâmico», prometida por Obama e desejada por coligação de mais de 50 países, promete ser ainda mais difícil, arriscada e demorada do que se imaginava.

Os bombardeamentos americanos e dos aliados árabes na região não estão a ser suficientes. Tiveram alguma eficácia momentânea, mas o efeito mais claro não foi, para já, o da «eliminação», mas antes uma alteração das peças do puzzle no terreno.

O EI continua a dominar várias cidades decisivas na Síria e no Iraque e, nas últimas semanas, moveu posições para a a fronteira entre a Síria e a Turquia.

Recip Erdogan, presidente da Turquia, depois de voltar de campo de refugiados curdo em Suruc, admitiu: «Precisamos de uma intervenção terrestre. Os ataques aéreos ao Estado Islâmico não chegam nem estão a resultar. Temos de utilizar forças terrestres e proteger as populações ameaçadas.»

Mas os turcos resistem a assumirem sozinhos as despesas de tão arriscada intervenção. Mevlut Cavusoglu, ministro dos negócios estrangeiros da Turquia, avisou, com o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, ao lado: «Não é realista esperar que a Turquia conduza uma operação no terreno por sua conta».

Kobani é a questão prioritária nesta luta sem quartel para travar o EI.

A batalha entre os jihadistas radicais sunitas e os curdos que tentam defender as suas posições foi quase rua a rua, casa a casa, naquela cidade do nordeste da Síria, na região de Aleppo, colada à fronteira com a Turquia.

O Pentágono e as chefias militares britânicas já vão avisando: os ataques aéreos americanos e do Reino Unido não serão suficientes para evitar que o Estado Islâmico se apodere de Kobani.

Com uma população de 45 mil pessoas, Kobani junta curdos, árabes, turcos e comunidades arménias.

A capacidade dos jihadistas se «misturarem» com a população civil é encarada por especialistas militares americanos e britânicos como a prova de que, a partir de um certo ponto, vai mesmo ter que haver tropas da coligação no terreno -- e não apenas o apoio aos rebeldes sírios, às forças iraquianas e aos «peshmargas» curdos.

«O uso de força por meio aéreo nunca foi garantia de que o conflito pudesse mudar de rumo a curto prazo», admitiu o ministro britânico das Relações Exteriores, Philip Hammond.

Jimmy Carter, que recentemente completou 90 anos, penúltimo presidente democrata antes de Obama, criticou o atual inquilino da Casa Branca por ter «demorado demais» na resposta ao Estado Islâmico.

«No que toca ao Médio Oriente, Obama mudou de políticas e foi hesitante na travagem da ameaça jihadista. «Esperou demais. Deixou que o EI se financiasse, criasse estruturas, fortalecesse as suas capacidades», criticou.

Também Leon Panetta, antigo secretário da Defesa e ex-diretor da CIA, apontou críticas algo inesperadas ao Presidente, tendo em conta que vieram de um antigo membro de topo da primeira Administração Obama: «O Presidente perdeu o rumo na política de segurança e cometeu erros que podem prolongar por 30 anos a luta contra o Estado Islâmico».

«Durante os primeiros quatro anos, e no tempo que estive lá - à frente do Pentágono - pensei que era um líder forte em assuntos de segurança ... mas nos últimos dois anos creio que perdeu, de certo modo, o rumo. Enviou mensagens ambivalentes ao abordar os temas e tentar clarificar qual o papel deste país», disse Leon Panetta, numa entrevista ao «USA Today».

Na reação, Bill Burton, antigo conselheiro do Presidente Obama, ripostou: «As críticas de Panetta são desonrosas, tristes, pequenas. Na substância, este presidente mostrou a sua liderança várias vezes. Tomou decisões muito difíceis. Defendeu os interesses americanos em várias frentes. Apanhou e eliminou Osaba Bin Laden. Tirou as nossas tropas do Afeganistão. Moveu este país na direção correta.»

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»