Barack Obama está quase a completar meio ano do segundo mandato.



Na altura da posse, o momento parecia ser de recuperação política para o Presidente. O clima de hostilidade dos republicanos tinha sido penalizado nas urnas pelo americanos.



Na tomada de posse e três semanas mais tarde no State of The Union, Obama lançava quatro grandes ideias: reforma da Imigração compreensiva; independência energética e combate às alterações climáticas; diminuição das desigualdades sociais; lançamento de uma parceria transatlântica de comércio e investimento.

Ainda em fase de recuperação económica, mas já sem o pânico de janeiro de 2009, parecia existirem condições para um segundo mandato politicamente mais «normal», longe do momento de exceção dos primeiros quatro anos.

Só que os primeiros meses do segundo mandato voltaram a reforçar a ideia de que a Presidência Obama poderá estar condenada a ser vivida em momentos de especial tensão.



Primeiro, foram os escândalos relacionados com as escutas a jornalistas; depois, perseguições da autoridade fiscal a grupos ligados ao Tea Party. Dois temas desconfortáveis para Obama, mas, na verdade, nenhum deles comprometedor.

O pior veio a seguir: as revelações de Edward Snowden, antigo funcionário da CIA e da NSA, sobre a verdadeira dimensão do PRISM colocaram a administração americana na berlinda e puseram, pelo menos durante alguns dias, em sério risco o prestígio internacional de Obama: até mesmo (e sobretudo) junto dos seus aliados mais duradouros.

Obama teve que voltar a colocar o seu foco na gestão de crise e, desta vez, até numa área em que, no primeiro mandato, manteve sempre fortes créditos: a política externa e a imagem internacional.

A maior consequência voltou a ser o seu enfraquecimento interno.

Se, nos primeiros tempos do pós-reeleição, se começaram a desenhar sinais de que zonas do Partido Republicano, sobretudo afetas a Marco Rubio (senador da Florida cubano-americano) estariam dispostas a avançar para uma Immigration Bill a aprovar pelo Congresso, a verdade é que os créditos políticos do Presidente foram-se esfumando nos últimos meses.

«Ele precisa de vitórias e precisa delas rapidamente. Não há grande volta a dar em relação a isso», comentou, sob anonimato, um estratega democrata, citado pelo «The Hill».

Em 2012, no auge da disputa com Romney, Obama previu que «depois da reeleição, a febre republicana no Congresso iria diminuir».

O problema é que isso não está a acontecer. Os últimos meses voltaram a ser de «political gridlock».

O que se passou com o «gun control» foi especialmente preocupante: após o massacre de Sandy Hook, poucas semanas depois da reeleição, Obama sentiu que tinha condições únicas de avançar para legislação poderosa para travar com a ameaça das armas.

A verdade é que as propostas da Casa Branca tiveram, até agora, efeito zero no Congresso. Nem junto dos senadores democratas elas mereceram consenso.



O mesmo já não sucede em relação à Imigração. Uma primeira diligência passou facilmente no Senado, por 68-32 (com muitos votos de republicanos). Só que o mesmo não está a ocorrer na House, com muitos congressistas conservadores a bloquearem a exigência de Presidente de conceder a cidadania aos imigrantes ilegais.

Doug Thornell, estratega democrata, resume com uma imagem divertida a limitação política de Obama num congresso de maioria republicana: «São precisos dois para dançar o tango e e os republicanos continuam a preferir ficar sentados nas cadeiras que estão encostadas na sala».

Um caso perdido? Talvez não. Em 2014, há eleições para o Congresso e Obama terá que pôr todas as fichas políticas na recuperação do controlo democrata.

Se não for assim, corre mesmo o risco de ficar na história como o «Presidente bloqueado».

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca