Há um novo atoleiro a ser formado no Iraque.

E o pior é que representa uma ameaça real bem superior à que, em 2003, levou a Administração Bush a avançar Bagdade para derrubar Saddam.

Há mais de um década, George W. Bush quis terminar o trabalho que o pai, no início dos anos 90, optou por deixar a meio, quando já tinha os marines à porta da capital iraquiana.

Onze anos depois, Barack Obama pode ver-se obrigado a fazer regressar os olhos da América para a antiga Babilónia, já sem qualquer ilusão de «espalhar a democracia», mas pela necessidade premete de conter um «novo califado».

Peter Mansoor, adjunto do general David Petraeus, elemento importante na estratégia de estabilização do Iraque em 2007/08, é muito claro: «É preciso refazer a aliança anti-Al Qaeda».

Em entrevista ao Expresso, a 21 de junho passado, o coronel Mansoor já lançava o aviso: «Devemos orientar o nosso esforço para a diplomacia, discutindo com as elites políticas iraquianas e com os atores regionais, sejam estes o Irão, a Arábia Saudita, a Turquia ou a Jordânia. O caminho é político e não militar e um governo de unidade nacional no Iraque é prioritário».

Uma visão que, por isso, caucionava a primeira leitura do Presidente Obama: «Um ataque militar sem enquadramento político não faz sentido e só serve para matar gente».

A grande questão, no entanto, fica por resolver: como travar a ameaça do ISIS (EIIL, se quisermos usar o acrónimo), o Estado Islâmico do Iraque e do Levante?

O poder militar do exército radical de Abu Bakr Al-Baghdadi não implicaria, de início, ameaça assim tão significativa: «O ISIS nunca poderá conquistar Bagadade. Além das forças armadas iraquianas, que defenderam a capital com muito mais energia do que o norte do país, o ISIS teria de lidar com dezenas de milhares de homens armados das milícias xiitas. Estamos a falar de uma cidade com sete milhões de habitantes, maior do que Estalinegrado, durante a II Guerra Mundial. Seria uma fortaleza. Em 2003/04 comandei uma brigada durante a invasão, ou seja, 3500 homens bem treinados, armados até aos dentes e, mesmo assim, tivemos dificuldade em controlar dois distritos de Bagdade. Imaginar militantes montados em «pick-ups» a tomar conta da cidade é fantasia», insiste o coronel Mansoor nessa entrevista.

Perante esta visão das cúpulas militares americanas, fica mais fácil perceber a via escolhida por Obama para endereçar aquela que será, neste momento, a maior ameaça no quadro internacional (com a situação na Ucrânia e a tensão crescente Israel/Palestina em forte concorrência).

Os Estados Unidos não irão voltar a enviar «boots on the ground» para o Iraque. Ponto. Mas intervêm de forma cada vez mais evidente: reforçando a oposição síria, interessada direta no combate aos «jihadistas» no Iraque.

Obama já pediu autorização ao Congresso para armas as forças moderadas de oposição a Assad, numa espécie de «jogada dois em um»: esse reforço posiciona os EUA como opositores ao regime de Damasco e aumenta os trunfos na travagem ao ISIS no Iraque.

A América cometeu vários erros na gestão do Iraque na última década. O principal terá sido o desmantelamento das unidades de força e segurança iraquianas, que hoje teria papel fundamental na nova ameaça «jihadista». Fartos do governo de Al Maliki (xiita, com patrocínio indireto dos EUA e do Irão), muitos iraquianos são terreno fértil para recolha de apoios dos «jihadistas» sunitas.

Mariano Aguirre, diretor do Norwegian Peacebuilding Resource Center, avisa, em entrevista ao DN: «O ISIS vai ser um terramoto na região do Médio Oriente. Nos últimos dez anos, estabeleceu uma série de alianças. O fenómeno é perigoso, pode levar à desintegração do Iraque, ter impacto forte no Líbano e na Jordânia».

Voltaremos em breve ao tema. Infelizmente.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»