Como travar o ISIS sem «regressar» ao Iraque?

Terá a ameaça jihadista sunita retirado as últimas esperanças de consumar a tendência de «retirada» americana?

Obama tem tentado, nas últimas semanas, preparar a opinião pública internacional, e sobretudo norte-americana, para algo que, neste momento, parece inevitável: vai haver um novo envolvimento em grande escala dos meios militares dos EUA e dos seus aliados no Iraque e na Síria.

Falta saber (e não é um pormenor técnico) se essa ação se limitará a bombardeamentos cirúrgicos (ainda que em grande número) ou se vai mesmo obrigar ao envio de tropas no terreno.

Em entrevista recente à NBC, o Presidente Obama garantiu: «Estou a preparar o país para lidarmos com a ameaça. Na quarta-feira vou fazer um discurso e descrever qual será o nosso plano daqui para a frente. Mas isto não vai ser anúncio sobre tropas terrestres norte-americanas.

Isto não é o equivalente à guerra do Iraque. É semelhante às campanhas de combate ao terrorismo que temos vindo a desenvolver de forma consistente ao longo dos últimos cinco, seis, sete anos».

A preocupação do presidente norte-americano em garantir que não será «uma nova guerra do Iraque» já tinha sido dominante há cerca de um ano, quando esteve na iminência de fazer um ataque à Síria de Assad.

Obama marcou a primeira fase da sua presidência por uma estratégia de «contenção» e «retirada». Os EUA lideravam «na retaguarda» (Líbia) e pelo «soft power», já não usando a força (retiradas do Afeganistão e do Iraque).

A ameaça galopante do ISIS voltou a baralhar tudo isto. «Se mais não tivesse mostrado, os actos de horror e violência bárbara do ISIS criaram um rápido consenso político e acrescentaram pressão no Presidente Obama: a cautela perante o horror, simplesmente, não chega», observa John King, correspondente sénior da CNN na Casa Branca.

Será o fim do «soft power» enquanto instrumento dominante para resolução das grandes questões externas para a atual administração americana?

Obama, que voltou a não querer precipitar-se perante as pressões, não teve pruridos em assumir, na semana passada, que «ainda não tinha estratégia» para combater o ISIS. Preferiu ir primeiro à Cimeira da NATO, convocou as obrigações dos seus principais aliados internacionais (o Reino Unido e a França disseram imediatamente que sim) e em Tallin notou, à margem da questão ucraniana, que dominava a conversa com o homólogo estónio: «O nosso objetivo é claro: degradar e destruir o ISIS, a ponto de deixar de ser uma ameaça. Vai demorar tempo e vai exigir um grande esforço».

O Presidente americano, mesmo insistindo na ideia de que não estaremos perante uma «nova guerra do Iraque» (continua a vontade zero em voltar a enviar «boots on the ground»), avisou: «Vamos precisar de usar todos os instrumentos que temos à disposição para travar o ISIS, para pôr termo à ameaça que eles representam à nossa segurança nacional».

A vida dá muitas voltas e a política internacional, então, dá ainda mais.

Há um ano, a Síria levava os norte-americanos a apoiar os rebeldes sunitas, que combatiam o regime de Assad, da dinastia alauíta, ramo xiita do Islão.

Mas a intervenção americana em Damasco «borregou» à última hora, perante a entrada em jogo de Putin e da mediação que levou à entrega das armas químicas, sob supervisão da ONU.

Consequência: a guerra civil na Síria e o degradar da situação no Iraque (governo xiita de Al Maliki, apoiados pelos americanos, sem capacidade de dominar cidades importantes e zonas crucais) foram campo fértil ao recrudescimento do ISIS.

Inimigos recentes (Irão, a Síria de Assad) tornam-se, agora, aliados estratégicos dos EUA para travar os jihadistas sunitas.

Nunca digas «desta água não beberei». No Médio Oriente, isso é mesmo uma impossibilidade.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»