O Senado dos EUA já aprovou o plano da Casa Branca para atacar a Síria.

Com uma ligeira maioria democrata na câmara alta do Congresso, esse «sim» era triunfo obrigatório para a rota de Obama no espinhoso plano de ter apoios para avançar para Damasco.

Na próxima segunda-feira, a Câmara dos Representantes, com forte maioria republicana, votará a proposta e aí as coisas mostram-se bem mais difíceis para o Presidente.

Obama tem tido alguns aliados republicanos de peso nesta questão. O principal deles é John McCain, profundo conhecedor da realidade política e militar da Síria, que até tem defendido uma ação em escala mais alargada. Outro senador sénior republicano que tem tentado convencer o seu partido a apoiar o Presidente democrata é Lindsay Graham, da Carolina do Sul.

Nos últimos dias, Obama tem feito um «final push» junto dos aliados dos EUA, para que possa ter uma coligação forte.

O «não» do Parlamento britânico e a posição clara de Merkel referindo que não tem o mínimo interesse em envolver militarmente a Alemanha nesta operação mostraram que a América de Obama está longe de ter a Europa na mão.

A França de Hollande é o principal interessado europeu nesta operação, mas mesmo em Paris há quem, na oposição, exija um mandato da ONU para avançar.

Uma análise pelos principais «players» deste tabuleiro mostra-nos que esse mandato não é realista. Com a Rússia e a China com poder de veto no Conselho de Segurança, a Administração Obama nunca terá uma resolução das Nações Unidas a legitimar o seu plano.

A verdade é que todos os estudos apontam para que a opinião pública americana está, em larga maioria, contra esta intervenção. Sondagem da Reuters-Ipsos aponta apenas 20% de americanos favoráveis ao plano de Obama, enquanto pesquisa idêntica do Pew identifica apenas 29%.

Peggy Noonan, antiga «speechwriter» de Ronald Reagan e importante analista conservadora, vê razões de sobre para os EUA intervirem, em função do que já se passou na Síria. Mas expõe a sua visão sobre porque é «a América está a dizer não»: «Poderá o Presidente mudar esta perceção? Sim e vai tentar. Mas até agora não resultou. O que é que os americanos estão neste momento a pensar? Provavelmente algo como: tempo errado, local errado, plano errado, homem errado. Doze anos de guerra. Uma ideia de que o que fizemos no Médio Oriente, no Afeganistão, no Iraque, não correu bem. Que a Líbia está sem lei. Que no Egito deitámos fora um amigo de 30 anos e que agora temos que lidar com a Irmandade Muçulmana, com perturbação e com um golpe militar. Os americanos estão agora mais exigentes e mais realistas», escreve Peggy, em artigo no «Wall Street Journal».

Outra importante voz conservadora, esta bem mais crítica de Obama, é o analista Charles Krauthammer. Em artigo na National Review Online, acusa Obama de estar a sério «pouco sério» nesta questão: «Estamos com um problema. O Presidente propõe atacar a Síria e o seu principal conselheiro militar não consegue dizer-nos qual é o objetivo».

A definição clara da operação (da sua dimensão, dos seus alvos e objetivos) é, de facto, a prioridade das prioridades nos próximos dias para a Administração Obama.

O plano de ataque para a Síria não é, para o conceito de Obama, uma nova guerra com contornos comparáveis com o Iraque e o Afeganistão. Os dados objetivos dão razão ao Presidente. Mas antes da intervenção militar, Obama tem uma missão a vencer: convencer os americanos e os seus principais aliados que esta é mesmo a jogada certa.

Missão quase impossível?

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca