A questão demográfica foi fundamental para a reeleição de Barack Obama, há precisamente um ano e meio.

O radicalismo do Tea Party puxou a agulha ideológica dos republicanos demasiado para a direita e isso comprometeu a abordagem de Mitt Romney no momento decisivo.

Com mais de 70% do voto latino e do voto asiático, e mais de 90% do voto negro, Barack Obama arrebatou fatia esmagadora dos 28% de «não brancos», compensando assim perda ligeira nos 72% de brancos (52/48 para Romney).

A «batalha demográfica» deu a Obama o segundo mandato porque uma demografia de 1992, por exemplo, quando da fácil reeleição de Bill Clinton, com muito menos peso das minorias no mapa eleitoral americano, talvez não fosse suficiente para dar nova maioria ao 44.º Presidente dos EUA.

Se as convicções políticas e ideológicas do Presidente não fossem suficientes, este facto ajudaria bastante: até por motivos de gratidão eleitoral, a reforma da Imigração estaria sempre no topo da agenda presidencial, neste segundo mandato.

Obama deu provas, nos últimos anos, de ter sido dos primeiros políticos de topo na América a perceber claramente que os EUA estão a mudar.

E que o axioma de que «os americanos são maioritariamente brancos, protestantes e conservadores» não é imutável, tem vindo a sofrer transformações.

Os meses que se seguiram à reeleição pareciam proporcionar um ambiente político mais propício à aprovação de uma reforma que permitisse um enquadramento legal mais realista e compreensivo para os cerca de 12 milhões de imigrantes ilegais na América.

À direita, o GOP dava sinais de querer moderar-se, depois da derrota com dimensões inesperadas nas presidenciais de 2012.

Marco Rubio, uma espécie de «candidato presidencial feito à medida» (é jovem, representa minoria em ascensão, os latinos, é senador num estado eleitoralmente crucial, a Florida), tentou tomar as rédeas da discussão no seu partido, com vontade de fazer algumas pontes com o Presidente.

Mas os últimos meses retiraram quase todo o tipo de ilusões. A palavra de ordem nos republicanos no Congresso em toda a era Obama é mesmo «bloquear».

Uma atitude que não deixa de causar perplexidade, a partir do momento em que se percebe que o próprio eleitorado republicano apoia, com larga maioria, uma reforma da Imigração (64% dos republicanos estão a favor da aprovação, um pouco menos que os 78% de democratas e 71% de independentes).

O mesmo estudo, publicado pelo «Politico.com», mostra que 41% dos hispânicos «apoiam fortemente» a ideia, bem mais que os 28% de brancos e 17% de afro-americanos. Se alargarmos a análise ao mero «apoio», a tese da aprovação da reforma passa folgadamente.

Junto do eleitorado, o clima de consenso em relação ao tema parece atingido. Mas o sistema político de Washington obedece a dinâmicas com razões que a Razão desconhece.

Perante a perspetiva da eleição de 2016 ser disputada entre Hillary Clinton e um republicano como Jeb Bush, Marco Rubio ou Chris Christie, é de admitir que a imigração se mantenha como um tema forte de campanha.

Mas... até quando?

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»