A ideia tem alguns anos e ganhou força política quando Barack Obama a escolheu como uma das surpresas do seu primeiro Discurso sobre o Estado da União do segundo mandato, a 12 de fevereiro.

Uma «nova Nato económica», numa plataforma comercial alargada, capaz de aprofundar de forma significativa aquela que já é a relação comercial mais forte do Mundo: as trocas entre EUA e UE.

Mesmo com a crise, o maior cliente dos Estados Unidos continua a ser, de longe, a Europa. E nem será preciso explica que o maior cliente dos países europeus, fora da UE, são os EUA.

Que necessidade existirá, então, de criar esta Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento?

As tensões políticas e diplomáticas (um pouco inesperadas) que existiram nas últimas semanas entre os dois gigantes comerciais dos dois lados do Atlântico talvez ajudem a compreender a pertinência deste projeto.

Ao lançar a prioridade política desta ideia, Barack Obama exortou: «Podemos criar uma aliança económica tão forte como a nossa aliança diplomática e de segurança».

Tendo em conta os desentendimentos das últimas semanas, podemos pensar que, afinal, a «aliança diplomática e de segurança» não é assim tão forte como Obama postulara.

Mas nestas coisas é sempre importante esquecer a espuma e atentar no essencial.

A recusa de Portugal, França, Itália e Espanha em autorizar o avião presidencial boliviano a aterrar para reabastecimento foi a maior prova de que essa aliança, nos momentos da verdade, funciona mesmo.

Os Estados Unidos tinham a indicação de que Edward Snowden ia mesmo naquele avião. E não poderiam permitir que um dos homens mais procurados pelos EUA atingisse o objetivo de obter asilo político num país hostil aos interesses dos americanos.

A reação indignada dos países latino-americanos, com a Bolívia à cabeça, pode parecer desconfortável. Mas contou certamente menos no jogo diplomático dos países europeus do que teria sido uma recusa aos interesses dos EUA.

Isto tudo aconteceu dias depois dos países europeus ficarem, no mínimo, estupefactos com Washington, perante a assunção implícita da Administração Obama de que o seu programa de vigilância implicou escutas aos países aliados.

O tema gera sempre desconforto. Mas foquemo-nos no essencial: o combate a sério ao terrorismo exige que se perceba tudo. E «perceber tudo» é, também, ter acesso ao que os nossos aliados fazem (até porque o grau de alianças dos aliados europeus não é equivalente ao dos EUA).

Ainda países como França ou Alemanha estavam a produzir declarações de desagrado contra Washington e já o «Le Monde» divulgava, em «timing» providencial, que afinal a França tem um programa semelhante.

Neste mundo cada vez mais pragmático, o que há a reter destes desentendimentos diplomáticos é que nem isso impediu o arranque das negociações do que é mais importante.

A «Nato económica» é para avançar e tem objetivos ambiciosos: num mercado potencial de 820 milhões de pessoas (300 milhões do lado de lá, 520 do lado de cá do Atlântico), prevêem-se vantagens mútuas para as duas maiores economias do Mundo.

Neste momento, ambas detêm 40% do poder de compra mundial. Há indicadores que apontam para uma subida de cerca de 13% do PIB americano, e de 5% do PIB europeu, em consequência deste acordo (dados de estudo da Fundação Bertelsmann).

Os americanos, que tinham metade da riqueza mundial depois da II Guerra, ainda são o país mais rico do globo, mas já só têm um quinto do PIB mundial.

Com este acordo, pretendem, travar o crescimento exponencial do peso chinês nas trocas comerciais com a Europa.

Estados Unidos e Europa podem já não viver em lua de mel.

Mas sabem que continuam a ser relação mais genuína e duradoura deste mundo complicado.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue Casa Branca