O «ano de ação» que Barack Obama prometera para 2014 teve, no sexto State of The Union deste Presidente, o seu primeiro grande campo de batalha.

Trunfos apresentados no Estado da União: défice cortado a metade, mais de oito milhões de empregos criados nos últimos quatro anos.

Obama sentenciou: «São vocês, os cidadãos, que fazem o estado da nossa união forte. E aqui estão os resultados: o desemprego mais baixo dos últimos cinco anos. O mercado imobiliário está a disparar. O setor indutrial está a criar empregos pela primeira vez desde os anos 90».

Perante o Congresso, Obama apresentou como principal novidade o aumento do salário mínimo dos funcionários públicos americanos para os 10,10 dólares/hora, a partir dos atuais 7,25 dólares/hora.

A medida tem uma especial carga simbólica: as questões da «desigualdade social» são vistas pelo Presidente como «definidoras do nosso tempo» e marcam uma das diferenças cruciais entre a visão dos democratas e os republicanos na América.

Ao exortar, em pleno State of The Union, essa medida presidencial sem ir ao Congresso, Obama dá claro sinal de que tem intenções de usar essa figura para contornar o «gridlock» do Congresso.

O Presidente que, ao fazê-lo, terá como resposta dos republicanos a crítica de que estará a agitar a «luta de classes».

Mas a realidade política e social na América há muito que aponta para um cenário de permanente combate ideológico para quem queira mudar alguma coisa.

Obama tem a «prosperidade da classe média» como um dos pontos centrais da sua presidência. E o Presidente voltou a usar a melhoria dos indicadores económicos (6,7% de desemprego e 4,5% de crescimento).

O problema é que o «americano real» ainda não sentiu os benefícios da recuperação económica. E talvez por isso, o Presidente pediu «um pouco mais de tempo porque a melhoria vai sentir-se ainda mais».

«Hoje, depois de quatro de crescimento económico, os lucros empresariais e os preços das casas raramente estiveram tão altos e quase nunca mostraram resultados tão bons», destacou Obama, para depois admitir. «Mas a média dos salários não foi alterada. A desigualdade aumentou. A mobilidade estancou. A realidade, nua e cruam é que mesmo em plena recuperação, demasiados americanos trabalham mais horas do que nunca para apenas conseguirem aguentar. E demasiados estão ainda sem trabalho».

«Oportunidade é o que nós somos. E o projeto da nossa geração é restaurar essa promessa», apontou o Presidente.

O State of The Union 2014 mostrou também um Presidente em autêntico «contra-relógio»: a dez meses das eleições intercalares, Obama quer resultados concretos ainda nesta sessão legislativa.

Obama insistiu na necessidade da reforma da Imigração, de uma lei que restrinja o acesso às armas e apontou para uma Energy Bill que coloque a América na rota da independência energética.

Tal como na questão do aumento do salário mínimo, o Presidente defendeu que uma «reforma da Imigração compreensiva terá benefícios económicos a longo prazo». Não criticou diretamente, por isso, a House republicana por não se ter ainda chegado a um acordo, mas expôs as vantagens que todos terão quando se chegar a entendimento quanto aos cerca de 11 milhões de imigrantes ilegais.

Quanto ao «ObamaCare», termo que para bem ou para o mal definirá, nos livros de história, os dois mandatos do 44.º Presidente dos EUA, Obama escolheu Amanda Shelley, uma médica assistente de 37 anos, natural do Arizona, que não tinha seguro de saúde e já sentiu os benefícios da lei de cuidados de saúde promovida por esta administração.

Ação, combate e otimismo. O Presidente aproveitou o momento mais importante do ano político da América para voltar a ter a bola do seu lado.

Terá algum benefício do seu antepenúltimo State of The Union?

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»