Um em cada quatro homens na região da Ásia-Pacífico reconhece ter cometido uma violação e a maioria saiu impune, revela um estudo divulgado esta terça-feira pela ONU e citado pela Lusa.

Entre 72 e 97% dos que admitiram ter cometido uma violação não foram julgados, segundo o estudo, que se baseia em inquéritos a 10.000 homens de 18 a 49 anos em nove lugares do Bangladesh, Camboja, China, Indonésia, Sri Lanka e Papua Nova Guiné.

Intitulado «Por que é que alguns homens usam a violência contra as mulheres e como podemos preveni-lo?», o relatório foi realizado por diversas agências das Nações Unidas e confirma que «a violência contra as mulheres é uma dura realidade», disse Roberta Clarke, representante da ONU, na apresentação do estudo em Banguecoque.

Segundo o relatório, os homens começam a usar a violência contra as mulheres ou meninas muito jovens, com 23% dos inquiridos em Boungainville (Papua Nova Guiné) e 16% no Camboja a cometer o seu primeiro crime sexual com menos de 14 anos.

Mais de 80% dos homens que admitiram ter violado no Bangladesh e na China responderam que tinham direito a manter relações sexuais sem o consentimento da mulher.

No estudo, a ONU não pergunta frontalmente aos inquiridos se já cometeram uma violação, mas se já «forçaram uma mulher que não era a sua esposa ou namorada a ter relações sexuais» ou se tiveram relações com uma mulher demasiado ébria ou drogada para dizer se consentia.

A ONU sublinha que há grandes diferenças entre as várias zonas, com resultados que vão desde os 4,3% no Bangladesh até 40,7% numa ilha da Papua Nova Guiné, país que regista uma das mais altas taxas de violência contra as mulheres no mundo.

Em média, são quase 11% os homens que reconhecem ter cometido pelo menos uma violação, segundo o estudo, também publicado na revista médica britânica «The Lancet».

E a proporção sobe para quase um quarto (24%) quando se inclui as violações de parceiras, esposas ou namoradas. Também aqui, as diferenças são importantes: 13% no Bangladesh e 59% na Papua Nova Guiné.

Cerca de 4% dos inquiridos, oscilando entre 1% e 14% dependendo do lugar, reconheceram ter cometido uma violação coletiva.

«Este estudo reafirma que a violência contra as mulheres pode ser prevenida», acrescentou em comunicado James Lang, coordenador do programa da ONU «Parceiros para a Prevenção», responsável pelo estudo.

«A prevenção é crucial devido ao predomínio da violência machista nos lugares estudados e porque é possível mudar a maioria dos fatores relacionados com este comportamento», disse Lang.

Segundo os autores do estudo, a prevalência da cultura machista, as desigualdades sociais e a discriminação na Ásia alimentam os abusos e a violência contra mulheres e raparigas, em muitos casos esposas ou familiares, educadas para serem submissas.