Mais de 2,2 milhões de catalães votaram este domingo no «processo participativo» que contornou a proibição de um referendo oficial e a esmagadora maioria respondeu «sim» a um Estado independente. Os votos não contam, pelo menos para já.
 
O cenário de longas filas de espera, famílias inteiras a votar e de um desejo de participação apesar da proibição do Tribunal Constitucional dá, pelo menos, força ao governo catalão para insistir no processo soberanista. No entanto, os partidos independentistas não estão totalmente unidos nesta frente.
 
O presidente do governo autónomo, Artur Mas, envia já esta segunda-feira uma carta a Mariano Rajoy a pedir um referendo legal e vinculativo.

«Temos agora as melhores cartas para fazer o Estado entender que em algum momento tem que ser feita uma consulta definitiva, com todas as garantias e as consequências. Ganhámos o direito a um referendo definitivo e, se puder ser, acordado e pactuado», afirmou, ainda no domingo.


Seja qual for a resposta de Madrid, e certamente será não, o processo vai continuar. «Ter uma atitude dialogante não significa que deixamos de fazer o que temos de fazer», disse já esta segunda-feira o porta-voz do governo catalão, Francesc Homs.

A opção de Mas a curto prazo parece ser, portanto, esgotar as hipóteses de diálogo. A expressiva votação pode dar-lhe margem para negociar uma maior autonomia para a região. No entanto, o líder do governo catalão pode estar só a ganhar tempo para convocar eleições antecipadas na Catalunha e garantir o referendo de qualquer maneira.

É que essas eleições teriam um caráter plebiscitário e podiam substituir, na prática, o referendo. Ou seja, se os soberanistas se apresentassem a votos numa lista conjunta e com a independência como bandeira, a votação seria vinculativa.

Votação deste domingo



O primeiro problema de Artur Mas está na própria Convergência e União (CiU), a coligação de governo entre a Convergência Democrática da Catalunha (CDC) e a União Democrática, porque a primeira defende as eleições e a segunda não. Segundo o coordenador da CDC, Josep Rull, o presidente do governo espanhol terá um prazo máximo de duas semanas para ceder na questão do referendo. Admitindo que essa hipótese é «remota», concorda que as eleições autónomas antecipadas são «mais que prováveis».

Só que a União Democrática rejeita o escrutínio e nem quer pensar em mais coligações. O líder do partido, Josep Antoni Duran Lleida, que fez questão de votar este domingo, assinalou o quadrado do «não» à independência. Já o secretário-geral do partido, Ramon Espadaler, avisou que está na hora da CiU «governar e não e de fazer eleições».

O segundo problema de Artur Mas é a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC). Apesar da votação deste domingo ter dado força à CiU na liderança do processo soberanista, a verdade é que o partido liderado por Oriol Junqueras está à frente nas sondagens. Daí, provavelmente, o tempo que Mas está a dar a Rajoy para negociar. O presidente do governo catalão quer ganhar tempo para recuperar os níveis de popularidade e, ao mesmo tempo, tentar convencer a ERC a juntar-se a uma lista às eleições autónomas, encabeçada pelo próprio Artur Mas.

O discurso de aparente vitória de Mas na noite de domingo já antecipava o recado para Junqueras:

«Quando estamos juntos, avançamos mais e melhor. Esta é uma mensagem para as próximas semanas e para os próximos meses»


No entanto, a ERC está firme na sua posição: exige eleições antecipadas já, sem negociações com Rajoy, e, após um eventual resultado positivo num futuro referendo, a declaração unilateral de independência da Catalunha. «Pactuar com o Governo é pactuar em vão», alertou Junqueras, que quer «deixar de perder tempo» e liderar o processo soberanista. Só nestas condições é que a ERC admite coligar-se com Mas, o que parece difícil de conjugar com as intenções da CiU.

A solução para este problema dentro das maiores forças independentistas pode ser a candidatura por listas separadas, mas com um acordo de coligação posterior. Aqui, poderão ser ainda ouvidas a Iniciativa Catalunha Verdes (ICV) e a Candidatura de Unidade Popular (CUP), também responsáveis pelo processo soberanista.

Oriol Junqueras e Artur Mas


Mas o presidente do governo catalão também tem de jogar fora dos partidos independentistas, até porque precisa deles para aprovar brevemente o Orçamento para 2015, com medidas que se esperam impopulares. A consulta deste domingo foi uma vitória sobre os partidos que assumiram posições contra ela. Ao levar mais eleitores às urnas do que todos os votos somados nos partidos independentistas nas últimas eleições autónomas, realizadas em 2012, Artur Mas mostrou que este é um tema que se estende além dos quatro partidos responsáveis pelo processo de soberania. Além disso, depois dos apelos ao boicote da população e à atuação da justiça, por parte do Partido Popular (PP), dos Ciutadans (Cs) e da União Progresso e Democracia (UPyD), realizar a votação sem incidentes e ter mais de 2,2 milhões de catalães a votar só pode demonstrar a vontade dos eleitores em participarem neste processo.

A assistir com interesse está o PSOE, principal opositor do governo de Rajoy. O secretário-geral do Partido Socialista Operário Espanhol, Pedro Sánchez, está já em Barcelona para se reunir com os socialistas catalães (PSC) e analisar os resultados de domingo. O presidente do PSC, Angel Ros, foi votar no domingo, demonstrando o interesse do partido no processo, mas em branco. O PSOE defende uma revisão constitucional, tornando Espanha um Estado federal. Não quer o referendo, nem a independência da Catalunha, mas certamente aproveitará esta consulta para atacar o executivo de Madrid.

Já Rajoy não parece muito afetado pela votação de domingo e insistirá que foi um processo antidemocrático e ilegal. «Não terá nenhum efeito», dizia o presidente do governo espanhol, mesmo antes da consulta. Fontes do governo de Madrid acrescentaram à Europa Press, já depois da votação, que as negociações não terão grande resultado, porque «o comportamento de Artur Mas dificulta muito o futuro».

Já esta segunda-feira, tanto o ministro da Justiça espanhol, Rafael Catala, como a secretária-geral do PP, Maria Dolores de Cospedal, ameaçaram o governo catalão com ações legais. «O Governo agirá em consequência» perante um «simulacro», realizado «à margem da lei», que constituiu um «ato de pura propaganda política» foram as palavras utilizadas por ambos. O argumento de Madrid para a não realização de um referendo mantém-se: a Catalunha, com 16% da população do país, não pode decidir por todos os espanhóis.

Para combater esta ideia, o governo catalão tem uma estratégia: ganhar apoios fora de Espanha.

«Pedimos ao mundo que nos ajude a convencer as instituições espanholas de que a Catalunha merece votar num referendo sobre o seu futuro», afirmou Artur Mas, este domingo.


Já hoje, o porta-voz do governo catalão, Francesc Homs, confirmou a intenção de alargar o debate independentista: «Esses apoios podem ganhar-se e ganham-se com determinadas atitudes, como a vontade de negociar, o civismo e o diálogo».

Recorde-se que, ainda em setembro, a Escócia realizou um referendo legal sobre a independência, mostrando que o assunto é muito mais vasto do que a divisão secular entre a Catalunha e o governo central de Madrid. Neste caso, o «não» venceu, levando a que, já esta segunda-feira, o primeiro-ministro britânico tenha sido questionado sobre se iria aconselhar o governo espanhol depois da sua experiência. «Queremos que a Espanha se mantenha unida. Sobre os referendos, se têm que ser feitos, que sejam feitos através dos quadros constitucionais e legais adequados», resumiu David Cameron.

Na consulta deste domingo, eram feitas duas perguntas: «Quer que a Catalunha seja um Estado?» e, se sim, «Quer que a Catalunha seja um Estado independente?». Entre os 2.236.806 votos, em 5,4 milhões de potenciais eleitores, com 96,8% das mesas escrutinadas, 80,76% (1.806.336 pessoas) votou «sim» nas duas perguntas. 10,09%% (225.659) votou «sim» na primeira e «não» na segunda e 4,54% (101.601) votou «não» totalmente.
 
Mas este domingo pareceu ser apenas a primeira volta de um jogo que se adivinha longo e complicado. Nos próximos tempos, é certo que o processo soberanista não vai parar, seja através do diálogo ou de eleições. O referendo, esse, continua a pairar no ar.

Ontem ganhámos a meia-final com uma goleada e vamos jogar a final quando chegarmos à conclusão de que é o melhor momento para a ganhar», resumiu o porta-voz da CiU, Jordi Turull, à Radio Euskadi.