O naufrágio do último sábado no Mar Mediterrâneo, entre a Líbia e a costa italiana, é tido como a maior tragédia marítima do pós-guerra. Ao todo, seguiriam na embarcação que virou pelo menos 950 pessoas. Desesperadas, em busca de uma vida melhor deste lado do mar.
 
Os números iniciais apontavam para mais de 700 imigrantes a bordo. Mas, de acordo com um sobrevivente, seriam 950 pessoas a bordo, incluindo umas cinco dezenas de crianças e umas duas centenas de mulheres.


 
Muitos, cerca de 300, teriam sido trancados pelos traficantes no porão do barco e não conseguiram fugir. Por isso, não terão aparecido na contabilidade inicial.
 

Barcos sobrelotados, dias a fio no mar

 
Todos os dias centenas de imigrantes do Norte de África arriscam a vida em busca de uma vida melhor na Europa. Muitos são vítimas de traficantes de seres humanos. Na sexta-feira, um dia antes da tragédia, entre um grupo de imigrantes resgatados, estava um bebé de apenas três meses, doente.
 
Só na última semana, de acordo com a Organização Mundial para as Migrações (IOM, da sigla em inglês), a confirmar-se o número de mortos temido no naufrágio de sábado, terão morrido cerca de 1600 pessoas, em quatro incidentes separados:
 
13 de abril (segunda-feira) - Cerca de 400 imigrantes desaparecem, na sequência do naufrágio de uma embarcação improvisada. A guarda costeira italiana detetou 42 barcos que transportariam um total de 6500 imigrantes. Um dos barcos naufragou. A guarda costeira conseguiu resgatar 144 sobreviventes e recuperou nove corpos.
 
16 de abril (quinta-feira) - De acordo com depoimentos de quarto sobreviventes, um barco insuflável tinha saído da Líbia no domingo. Esteve em alto mar quatro dias com 45 pessoas a bordo até se virar. Pelo menos 40 pessoas morreram.
 
16 de abril (quinta-feira) - As autoridades italianas detiveram 15 pessoas, imigrantes que terão atirado 12 companheiros ao mar por intolerância religiosa. Os homens detidos, incluindo um menor, eram todos muçulmanos. As vítimas cristãs.

Os barcos sobrelotados, os inúmeros dias no mar, o cansaço e as incertezas propiciam discussões entre companheiros de jornada.
 
18 de abril (sábado) - Um barco que fazia a rota entre a Líbia e a costa siciliana, capotou. Estariam então 950 pessoas a bordo. Apenas 28 foram salvas.
 
Ainda de acordo com a IOM, até ao início da última semana e ao naufrágio de segunda-feira, tinham morrido mais de 500 pessoas. Feitas as contas, só este ano já se ultrapassaram largamente os 2 mil mortos. 

A guarda costeira italiana recebeu três pedidos de ajuda, já esta segunda-feira, de embarcações em dificuldades, avança a Associated Press. Um dos pedidos, às 11:10 (hora de Lisboa), alertava para um barco com 300 pessoas a bordo estava a afundar. Há relato de pelo menos 20 mortos, ainda de acordo com a AP.

Também esta segunda-feira, um barco com 200 pessoas a bordo encalhou ao largo da ilha de Rodes, na Grécia, fazendo pelo menos três mortos e dezenas de desaparecidos. 
 

Principais rotas da imigração no Mediterrâneo

 
A costa italiana (Sicília e a ilha de Lampedusa) é o principal destino de milhares de pessoas que partem todos os dias do Norte da Líbia. O porto de Tripoli, mas também o de Abu Kammash, o de Zuwarah e o de Tajoura são os principais pontos de partida.
 
O Sudeste da Tunísia é também um dos maiores pontos de partida. A ilha de Pantelleria é o principal destino dos imigrantes que partem da Tunísia.
 
Quer num caso, quer noutro, são poucas centenas de quilómetros que demoram dias a fazer, sob Sol intenso, sem alimentos, sem água e sem quaisquer condições.


 
A costa sul de Espanha é também um importante destino, sobretudo para imigrantes que partem do Norte de Marrocos.

No mapa acima, os pontos assinalados a verde mostram os principais pontos de partida e de destino das rotas marítimas de migração que parte do Norte de África para o Sul da Europa. Os pontos assinalados a amarelo marcam alguns dos principais centros de imigração, onde se concentram os candidatos a atingir a Europa antes de se «distribuírem» pelas rotas terrestres e marítimas. A roxo estão assinaladas cidades que, de alguma forma estão ligadas à rota da imigração, por serem locais de passagem. Ceuta e Melila (enclaves espanhóis em Marrocos), Ouargla (Norte da Argélia), Sebha e Ajdabiyah (na Líbia) e o Cairo (Egito).
 

De que fogem os que partem de livre vontade?

 
É sabido que muitos são vítimas do tráfico humano. Mas a grande maioria tenta a travessia de livre vontade.
 
Muitos fogem simplesmente da fome e da guerra civil que assola os seus países de origem. Mas as vagas mais recentes de migrantes incluem já os que tentam escapar à força destruidora do Estado Islâmico.
 
No último ano, notou-se também alguma influência da epidemia de ébola nos principais focos de procedência de imigrantes por via terrestre.
 
Marrocos, Argélia, Mali e o Egito são grandes pontos de concentração para a migração por via terrestre, proveniente de vários pontos do território africano.
 

«Nada mais que genocídio»

 
As autoridades estimam que, no ano passado e este ano, já tenham morrido cinco mil pessoas a tentar atravessar o Mediterrâneo para chegar à Europa. Arriscam a vida em embarcações improvisadas. Pagam fortunas que não têm para tentar arranjar lugar nessas embarcações. Outros são forçados a entrar nesse caminho para a morte por traficantes de seres humanos.
 
Se esticarmos um pouco o período temporal, os números sobem drasticamente. As tragédias sucedem-se. O número de mortos é dramático.
 
Joseph Muscat, o primeiro-ministro de Malta, um dos grandes destinos destes migrantes, reagiu revoltado depois da tragédia de sábado. Em declarações à CNN, afirmou que se trata de um «genocídio». «Nada mais que um genocídio».
 
Cronologia dos maiores naufrágios dos últimos três anos no Mar Mediterrâneo, excluindo os da última semana:
 
Abril de 2011 - Duzentas e cinquenta pessoas desaparecem na sequência de um naufrágio ao largo da costa de Lampedusa.

Maio de 2011 – Embarcação com mais de 600 pessoas a bordo naufraga ao largo da Líbia. Apenas 130 sobreviveram.

Junho de 2011 – Duzentos imigrantes desaparecem no naufrágio de mais uma embarcação líbia. Apenas 26 cadáveres foram recuperados.

Outubro de 2013 – Uma das piores tragédias de sempre: 360 imigrantes morreram ao largo de Lampedusa quando o barco em que seguiam afundou.

Julho de 2014 – Não se tratou de um naufrágio, mas ajuda a perceber a dimensão da tragédia: num barco em que viajavam 566 imigrantes provenientes do Norte de África, morreram 45 pessoas asfixiadas.

Agosto de 2014 – No dia 25, a Marinha italiana resgatou 360 pessoas de um barco naufragado. Seis cadáveres foram retirados do mar.
No dia 26, foram encontrados 24 cadáveres na costa Sul de lampedusa
No dia 31, a guarda marítima tunisina recupera 41 cadáveres de imigrantes que morreram afogados na costa da cidade de Bem Gardane.

Fevereiro de 2015 – Mais de 300 imigrantes morrem no naufrágio de quatro embarcações sobrelotadas.
 
De acordo com a BBC, organizações não-governamentais estimam que mais de 20 mil pessoas tenham perdido a vida a tentar alcançar a Europa nos últimos 20 anos.