A União Europeia (UE) pode estar a viver o início de uma crise política por causa da imigração ilegal. A Itália está farta de suportar sozinha o fardo de receber dezenas de milhares de pessoas que atravessam o Mediterrâneo em condições dramáticas, a grande maioria das quais nem sequer tem o solo italiano como destino final.

Matteo Renzi, primeiro-ministro da Itália, avisou este domingo:

"As respostas da Europa, até agora, não têm sido suficientemente boas. (...) Se a Europa escolher a solidariedade, ótimo. Se não escolher, temos um plano B pronto, mas este prejudicaria, antes de mais nada, a Europa".

Por enquanto, nada se sabe sobre este misterioso plano B; o que se sabe é que o governo de Roma quer, e depressa, que a União Europeia defina uma política mais solidária para enfrentar esta crise humanitária. O ministro do Interior italiano, Angelino Alfano, explicou as opções de uma forma clara:

"Ou temos uma distribuição equitativa de imigrantes pela Europa, ou organizamos campos de refugiados na Líbia, ou organizamos uma política séria de repatriação. (...) Se a Europa não estiver à altura da sua responsabilidade e solidariedade, encontrará uma Itália diferente".

As exigências italianas, que serão apresentadas numa reunião dos ministros do Interior da  UE na terça-feira, não são novas, mas foram proferidas em tom bem mais grosso nas últimas horas por causa de vários incidentes nas fronteiras com a França e a Áustria.

Em Ventimiglia, no norte da Itália, cerca de 200 imigrantes ilegais que queriam passar para a França recusam-se a abandonar a zona, isto apesar de as autoridades francesas lhes terem recusado a entrada no sábado. Alguns, passaram a noite ao relento, em cima de rochas junto ao mar; outros entraram em greve de fome; todos eles se recusam a voltar para trás. 

Este é apenas o último, e mais visível dos casos de recusa da França em deixar entrar imigrantes ilegais provenientes de Itália. Na última semana, mais de mil pessoas foram obrigadas pela polícia a voltar para solo italiano - em muitos casos, a pé. Na Áustria (país membro da UE) e na Suíça, estão a passar-se situações semelhantes diariamente.

A capacidade italiana para lidar com este afluxo está a atingir o limite. Só este ano, chegaram 57 mil pessoas e as embarcações continuam a atravessar o Mediterrâneo. Em Milão, um armazém está a ser transformado num centro de acolhimento e, em Roma, a Proteção Civil criou um campo de tendas. Mesmo assim, não é suficiente: centenas de pessoas estão a viver nas estações de caminho-de-ferro das duas cidades.

A solução tem de ser europeia, todos o dizem, mas o problema é definir o esforço que cabe a cada país, quer em termos de acolhimento de imigrantes, quer em termos financeiros. Depois do último grande naufrágio, em abril, que causou a morte a cerca de 800 pessoas, a UE comprometeu-se a acolher e a distribuir pelos países membros 24 mil pessoas. Este número é considerado uma "provocação" pelo chefe do governo italiano, mas nem esse está a ser fácil de alcançar. 

Nessa, como noutras áreas, o consenso europeu é cada vez mais uma miragem.