«Se os consumidores fizessem sempre escolhas racionais não haveria crises e Donald Trump não seria eleito Presidente. Acho que nada pode explicar Donald Trump. Julgo que Donald Trump revela as fraquezas de todas as ciências sociais. Internamente, e para o resto do mundo, é impensável que alguém vote nesta pessoa: não tem experiência e parece que apenas se propõe a "fazer coisas". É natural que as pessoas se sintam zangadas, mas se estamos zangados não vamos pegar num martelo e bater com ele na cabeça. Estamos mais perto de Homer Simpson do que de Einstein»

(Richard Thaler, Prémio Nobel da Economia 2017)

 

Quase um ano depois da eleição (sim, o tempo passa rápido), ainda há margem para nos escandalizarmos com Donald Trump.

O prestígio e a credibilidade do que diz e faz o Presidente dos Estados Unidos diminuem em cada ação e em cada intervenção do 45.º ocupante da Casa Branca.

Quando pensávamos que, passados estes meses, já teríamos visto quase tudo, eis que Trump está agora em guerra aberta com o seu Secretário de Estado, isso mesmo, com o chefe da diplomacia, cargo que, supostamente, seria um dos pilares de estabilidade de uma administração americana.

Rex Tillerson, que no início parecia ser um dos elementos mais próximos do Presidente, já estava a acusar sinais de afastamento e divergência com Trump (na questão russa e, sobretudo, na gestão da crise norte-coreana e no modo como Washington deveria lidar com os devaneios nucleares de Kim).

Mas para lá destes assuntos mais delicados da política internacional, a verdadeira tensão entre Presidente e Secretário de Estado tem a ver, uma vez mais, com o inacreditável egocentrismo do sucessor de Barack Obama. Donald chegou a desdenhar a forma como Rex tem insistido na via diplomática para travar Pyongyang, insinuando que acabará por resvalar para o conflito real (“isso é um desperdício de tempo, vou mas é fazer o que tem que ser feito”).

No auge da tensão com a Coreia do Norte, este verão, Tillerson, garante a NBC, terá estado a um passo da demissão. Em reunião a 20 de julho, com membros da equipa de Segurança Nacional, Defesa e diplomacia, Tillerson terá chamado “idiota” ao presidente, pelo modo como aceitara entrar no jogo de insultos com Kim Jong-Un. Apesar do desmentido público seguinte (“nunca admiti sair do Departamento de Estado”), a verdade é que Tillerson não deixou de estar, desde aí, sob vigilância do Presidente.

Donald Trump, em sinal de que desconfia que Tillerson terá mesmo dito a palavra “moron” para se referir ao Presidente dos EUA, atirou, em entrevista à Forbes: “Se ele disse isso eu acho que temos de comparar testes de QI. E posso já dizer-lhe quem é que vai ganhar”. Hey: o que é isto? O líder do país mais poderoso do mundo em picardia pública com o chefe da diplomacia… do seu governo? Isto, decididamente, não é bem um Presidente dos Estados Unidos.

Os riscos da narrativa populista

Um dos pilares da narrativa populista de Trump é o seu discurso anti media. Donald veste a pele do justiceiro com soluções tipo “chave na mão” para problemas complexos, que nunca se resolveriam por um homem só -- e, talvez, por isso, haja tantos milhões mal informados que acabam por cair na ideia sexy de que um líder “puro” e “providencial” apareceria a cumprir o proclamado “I alone can fix it”.

Um país diverso, contraditório e heterogéneo como os EUA são tudo menos isso: nada de fundo se resolve apenas com um líder ou sem contrapesos. Os media têm, por isso, um papel decisivo na verificação de uma presidência que tem sido, a todos os títulos, singular – no pior sentido do termo. A base zangada e mal informada que apoia Trump (cerca de um terço do eleitorado americano) acredita cegamente no que diz o Presidente e move-se, de forma irracional, contra o suposto “poder malévolo dos media da Costa Leste”.

Não tem a ver com esclarecimento ou racionalidade: boa parte das escolhas pessoais e coletivas dos estranhos tempos que correm fundam-se em paixões e convicções que não passariam no “reality check”.

Trump sabe disso e faz da guerra aos media um aliado instrumental. Mas... not so fast, Mr. President: daí até se arrogar no direito de “retirar a licença” a uma grande cadeia televisiva, como Trump fez ontem, em ameaça à NBC (por alegada notícia falsa em relação ao que o Presidente disse sobre as armas nucleares), vai uma grande distância.

O direito à liberdade de expressão e o poder dos media são incrivelmente fortes nos EUA – e não deixaram de o ser na era Trump. Pelo contrário: a necessidade de “accountability” tem provocado uma espécie de renascimento do grande jornalismo na América. Donald Trump está a entrar por um caminho perigoso e a estratégia do confronto, que até agora lhe rendeu alguns frutos, pode vir a rebentar-lhe nas mãos.

Mais uma vez, Donald mostra ter uma ideia errada sobre os limites do seu próprio poder. Enquanto isso, a aversão desta administração ao multilateralismo e à relevância das grandes instituições internacionais levou Trump a decidir que os EUA saem da UNESCO, em mais um episódio deprimente da falta de visão da atual liderança americana. Isto não é bem um Presidente dos Estados Unidos.

Obsessão: destruir todas as marcas de Obama

Donald Trump tem uma obsessão em destruir todas as marcas deixadas por Barack Obama. E, ainda pior do que isso, o 45.º Presidente dos EUA revela um desconhecimento primário e absolutamente assustador sobre os principais dossiês que dominam a agenda presidencial.

Essa conjugação de falhas é perigosa e potencialmente explosiva, tendo em conta os poderes do inquilino da Casa Branca.

Nas tentativas (felizmente falhadas até agora) de revogar o ObamaCare e no anúncio de saída abrupta ("we're getting out") do Acordo de Paris, já se tinham tirado todas as dúvidas sobre como Trump pode mesmo assumir posições políticas totalmente erradas, insistindo em erros e nem se preocupando muito em sustentar com factos.

O próximo tiro na água será, tudo indica, a denúncia americana ao acordo nuclear com o Irão. Tudo nisto é mau: a ausência total de contacto com a realidade (Trump está a ignorar, por simples teimosia e meramente para cumprir promessa feita à sua base eleitora, as vantagens óbvias de dissuadir Teerão de avançar para um programa nuclear), a desvalorização do multilateralismo (Trump parece querer ignorar propositadamente que este não é um tratado bilateral EUA-Irão, é, isso sim, um acordo alargado entre seis países), a falta de argumentos válidos (Trump não consegue explicar que vantagens vai dar aos EUA por se porem de fora, ficando no ar a dúvida sobre se o Presidente dos EUA percebe mesmo que sair do acordo não significa anulá-lo, significará apenas... que a América se demite de liderar esta questão).

Os apelos de Moscovo e Bruxelas para que Trump não faça o está a ameaçar fazer têm tudo para ter efeitos contraproducentes -- Donald gosta de mostrar à sua base que ninguém o faz demover e que é um "durão" que está "a fazer a América grande outra vez".

Na verdade, ao preparar-se para rasgar o "Iran Nuclear Deal", que tanto trabalho deu à diplomacia americana e à anterior administração americana, Trump está apenas a mostrar que tem uma visão fechada, mesquinha e errada sobre o que devem ser as relações internacionais.

Em vez de "pôr a América mais segura", está a criar, desnecessariamente, um novo foco de tensão, ignorando, por completo, os sinais vindos de Teerão pós acordo nuclear (vitória eleitoral dos moderados e envolvimento sólido e consistente do Presidente Rohani e da diplomacia liderada por Javad Zarif). Trump, nos comícios para a sua base, insiste, cegamente, na acusação que Obama "assinou um acordo horrível, oh, como foi horrível para nós..."

Como muito bem disse o ministro dos negócios estrangeiros iraniano, "neste acordo ficou claro que o Irão não iria produzir armas nucleares. Isso foi acordados pelo Irão pelos 5+1. Chegámos a um acordo que ninguém gosta por completo e isso é bom, porque nenhum acordo bom é um acordo perfeito. Nunca se tem todas as partes totalmente satisfeitas. É preciso haver um acordo imperfeito, para que todos os lados cheguem a um consenso e possam negociar. Por isso, acho que essa acusação de Trump é mal informada e não reflete a realidade. E não há nenhuma cláusula de caducidade, como é erradamente dito. Isso é um mito propagado pelo atual Presdente dos EUA. O Irão comprometeu-se a não produzir armamento nuclear. Se os EUA se comportarem como era suposto e estava protocolado, oito anos após o acordo assinado, ou seja daqui a seis anos, o Irão ratificará o protocolo adicional em que autorizará o controlo permanente das suas centrais, por parte da Agência Internacional de Energia Atómica. O nosso programa manter-se-á pacífico".

Quando vemos o chefe da diplomacia iraniana a dar uma lição de bom senso e clarividência ao líder da maior potência do mundo, percebemos, dramaticamente, como isto não é bem um Presidente dos Estados Unidos.