A onda republicana não só se confirmou como até foi maior do que muitos previram.
 
Barack Obama fará os seus dois últimos anos de mandato «sozinho» na Casa Branca, perante um Congresso, agora sim, total e assumidamente hostil.
 
O Partido Republicano venceu, a toda a linha, as eleições intercalares: alargou em 12 assentos a vantagem que já tinha na Câmara dos Representantes (passa a ter 243 lugares, para apenas 175 dos democratas), arrecadou o controlo do Senado (em proporção idêntica à vantagem de que os democratas dispunham); venceu largamente em número de votos e até aumentou a vantagem que tinha nos governadores de estados (obtendo triunfos em estados que costumam ser democratas nas presidenciais, como Illinois, Maryland ou Maine).
 
Os democratas perderam a maioria simples que tinham na câmara alta e -- mesmo estando já relativamente preparados para levar com uma derrota que, do ponto de vista do ciclo eleitoral, era previsível (os presidentes a meio do segundo mandato costumam sofrer da chamada «maldição dos sextos anos») – não esperariam perdas como a de Mark Udall (senado pelo Colorado), Bill Braley (senado pelo Iowa), Kay Hagan (senado pela Carolina do Norte), ou os tais do governadores em estado fortemente «azuis» e que passam agora para mãos republicanas.
 
Um olhar pelo mapa eleitoral da América, depois das eleições da madrugada de terça para quarta, retira qualquer dúvida: os EUA estão a virar à direita, pelo menos nas escolhas locais e estaduais (e ainda de representação estadual ao nível federal, no Capitólio).
 
Há, no entanto, alguns pormenores que devem ser tidos em conta e que atenuam a dimensão da derrota democrata: a taxa de participação destas eleições não chegou a 40% (sendo que nas presidenciais, não sendo muito alta, tem passado os 50%).
 
E isso pode explicar uma boa parte do «recuo democrata»: é que as «maiorias Obama» nas presidenciais 2008 e 2012 foram formadas essencialmente por quatro segmentos (mulheres, jovens, negros e latinos).
 
Ora, no geral, estes segmentos foram muito menos às urnas, na terça à noite.

O fator mobilização (neste caso, falta dela, para os democratas) empurrou os republicanos para vitória maior do que se imaginara. Mas não explica tudo, claro.
 
A insatisfação popular perante o modo como Barack Obama lidou, nos últimos meses, com temas como a luta contra o Estado Islâmico, a crise do Ébola ou a tensão na fronteira com os imigrantes ilegais foi o motor da queda democrata e da subida republicana.
 
Cientes disso, muitos candidatos do partido de Obama fugiram autenticamente da companhia do Presidente, durante a campanha. O impulso era compreensível, mas… terá sido inteligente? A questão é que, sem a base de apoio de Obama (que a máquina que elegeu e reelegeu o Presidente ainda é capaz de energizar), os democratas ficaram mesmo desapoiados na linha de combate.

Consequência: depois dos americanos terem ido a votos, o Presidente ficou sozinho na Casa Branca. 

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»