Ted Cruz, 44 anos, senador júnior do Texas, é o primeiro candidato declarado às presidenciais 2016 na América.
 
E, sim, é preciso escrever «declarado» porque, na prática, há já vários candidatos no terreno, sobretudo do lado republicano.
 
Filho de um cubano que chegou a combater por Fidel contra Fulgêncio Batista, mas depois se afastou quando descobriu que Cuba «tinha acabado de cair no comunismo», e de uma americana, nasceu em Calgary, no Canadá, onde os pais se encontravam a trabalhar, no ramo do petróleo. 

Apesar da Constituição americana supostamente exigir que o Presidente tenha nascido nos EUA (como os detratores de Barack Obama bem sabem...), a verdade é que a disposição é ambígua e refere o termo «natural-born citizens». 

Ora, na interpretação de Ted Cruz (e da muitos especialistas), pelo facto da mãe ser americana, Ted adquiriu nacionalidade norte-americana quando nasceu, mesmo tendo o Canadá como país natal. A «nuance» já tinha sido colocada com o nomeado republicano de 2008, John McCain, que nasceu no Canal do Panamá, em base militar norte-americana.

Polémicas de locais de nascimento à parte (que não deixam de ter a sua ponta de ironia que afetem o primeiro candidato às primárias republicanas, depois de anos de disparate dos «birthers» que quiseram anular as eleições de Obama), a ideia forte a reter é que Ted Cruz jogou na antecipação.

É para levar a sério, Ted?

O senador júnior do Texas não tem, pelo menos para já, hipóteses reais de obter a nomeação republicana, muito menos de ser eleito Presidente dos EUA em novembro de 2016. 

Menos viável do que outros candidatos da ala «Tea Party», como Marco Rubio, Mike Huckabee ou Rand Paul, Ted tentou ganhar terreno cedo e baralhar o jogo.

Num cenário altamente implausível de ganhar a nomeação, as sondagens indicam que Hillary bateria facilmente Ted na eleição geral, numa proporção de 60/40.

O seu discurso político foca-se muito nos conceitos de Deus, «sonho americano» e três inimigos: o aborto, os impostos e o «peso do Governo».

Foi nesse mantra que viveram os radicais de direita nos últimos anos. O eleitorado natural de Ted são os republicanos mais à direita, que nunca digeriram as eleições presidenciais de Barack Obama. 

Um dos pontos que Ted Cruz mais tem atacado integra-se nessa ideia geral do «peso do Governo».

O «ObamaCare», como os republicanos gostam de chamar à Reforma da Saúde aprovada pela Administração Obama, levou até, há dois anos, a um ato bizarro de Ted Cruz: em pleno Senado, falou durante 21 horas seguidas, para tentar boicotar a aprovação da proposta, um instrumento de «filibuster» levado ao limite. 

Apesar de se opor de forma tão radical ao ObamaCare, Ted admitiu que irá usufruir dele para obter um seguro de saúde. Only in America...

Em outubro de 2013, Ted Cruz foi um dos principais promotores, no Senado, do «shutdown» que paralisou, durante duas semanas, o governo federal, por falta de acordo orçamental. Mesmo depois de se ter chegado a uma solução bipartidária, de modo a retomar a normalidade dos serviços federais, Ted foi um dos 18 republicanos que, no Senado, votaram contra.

As sondagens não dão mais que 5/7 pontos percentuais a Ted Cruz na corrida republicana. Um pouco atrás dos nomes referidos que com ele disputarão a ala direita; menos de metade das preferências dos dois «frontrunners» do momento: Jeb Bush, ex-governador da Florida e favorito à nomeação, e Scott Walker, governador do Wisconsin e muito forte nos estados de arranque.

Ted Cruz vai jogar quase tudo nas votações no New Hampshire (forte presença de cristãos evangélicos, um dos segmentos que o podem favorecer) e, sobretudo, na Carolina do Sul. 

Para já, foi só a lebre. Quase nada indica que vá ser o vencedor a cortar a meta. Mas, pelo menos, pode dar para perturbar a conversa no lado republicano. 

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»