E aqui está a primeira vítima do louco verão que lançou Donald Trump para liderança folgada e improvável da corrida republicana: Scott Walker, popular governador do Wisconsin, ‘frontrunner’ no Iowa até julho, desistiu da candidatura à presidência dos EUA.
 
Em dois meses passou de favorito à nomeação (disputava esse estatuto com Jeb Bush no início do verão) a desistente precoce (só Rick Perry, ‘cowboy’ texano o fez antes).
 
Apagado nos dois debates televisivos (as atenções estiveram essencialmente focada em Trump no primeiro e em Trump e também Carson e Fiorina no segundo), Scott Walker foi por aí abaixo nas sondagens nas últimas semanas e não terá resistido a ver o seu nome com menos de… 1% na sondagem CNN já depois do segundo debate.
 
Visto como um conservador forte em estado chave e do Midwest (ganhou três vezes o estado do Wisconsin nessa plataforma de impostos baixos e programa de direita), não foi capaz de transportar essas credenciais para a corrida republicana.
 
Como é que isto foi possível?
 
Muito terá a ver, certamente, com a tendência dos republicanos de se virarem para os candidatos que se assumem como «não políticos».
 
À cabeça, claro, o fenómeno Donald Trump. Mas mais recentemente, também Ben Carson, segundo classificado neste momento (e cada vez mais próximo de Trump nas sondagens nacionais) e, nas últimas semanas, também Carly Fiorina (que está a capitalizar o bom desempenho nos dois debates televisivo e é, também ela, uma ‘não política’ de carreira).
 
Na declaração de desistência, Scott Walker exortou, em Madison, Wisconsin: «Acredito que fui convocado para ajudar a limpar o terreno desta corrida, para que seja possível o surgimento de uma mensagem conservadora positiva. Uma alternativa positiva ao atual favorito».
 
Sem acusar o toque, Trump escreveu no twitter: «Scott Walker é um tipo simpático com um grande futuro».
 
Mas Walker, insistindo na ideia de que essa é uma «necessidade para assegurar o futuro do Partido Republicano», lançou mesmo apelo a outros candidatos a seguirem o seu exemplo, no sentido de «se encontrar uma solução capaz de fazer prevalecer alternativa conservadora positiva, para que, no fim, os votantes escolham não pelos ataques pessoais, mas por ideias construtivas. Que votem a favor de algo, não contra alguém».
 
Sean Trende, no Real Clear Politics, observa, em artigo com pergunta sugestiva: «O que terá acontecido ao forte campo republicano?», comparando esta fase com uma corrida de cavalos: «A questão é que as pessoas que seguem corridas de cavalos sabem que, à primeira volta, não se presta grande atenção à posição de cada concorrente. Não se ignora todos ao mesmo tempo, mas estamos mais interessados na forma como os cavalos correm, como eles estão sair-se comparado com corridas anteriores, se estão a correr o tipo de corridas a que estão habituados…»
 
Referindo-se à desistência de Walker, Trende apontou: «Ele não saiu da corrida porque caiu para pouco mais de zero por cento a sondagem da CNN, nem desistiu porque toda a gente estivesse errada na ideia de que ele poderia ser um bom candidato. Na verdade, a asserção dele no início da candidatura – não se ganha três vezes o governo do Wisconsin como um republicano conservador sem várias qualidades como candidato – continua a ser correta. Mas mesmo um bom candidato pode fazer uma péssima campanha (Phil Gramm e Tim Pawlenty são dois exemplos disso no passado).
 
Quem vai ganhar com isto?
 

Ainda é cedo para saber, mas tudo indica que haverá, pelo menos para já, quatro beneficiários com a saída de Walker: Jeb Bush (que continua abaixo dos dez pontos nas sondagens nacionais), Marco Rubio, John Kasich e Carly Fiorina.
 
Bush pode tentar começar a assumir-se como a tal «alternativa conservadora positiva» que Walker reclama; Rubio disputava com Scott a noção de «jovem conservador com futuro»; Kasich, governador do Ohio, tem pontos de proximidade com as credenciais executivas republicanas de Scott; Fiorina está a tentar apanhar um ponto comum entre ser mais moderada que Trump e Carson mas menos colada «aos políticos» que os outros candidatos.
 
Não será de excluir que, nos próximos três ou quatro meses, ainda antes do Iowa, outros candidatos sigam o caminho de Perry e Walker (Santorum? Graham? Jindal? Christie?).
 
Talvez só quando o leque de candidatos se resume a cerca de metade dos atuais 15 comece a ficar mais claro qual será o verdadeiro cenário de decisão do nomeado.
 
Quanto ao futuro presidencial de Scott Walker… talvez 2020 lhe seja uma data mais favorável.
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»