Não foi só a proposta de Reforma Fiscal no discurso do Estado da União: este Obama versão «Robin Hood», que pretende tirar um pouco aos super-ricos para financiar programas sociais e aliviar fiscalmente os mais desfavorecidos e a classe média para estar para durar.

É um Presidente solto das amarras de tentar «consensos» que já percebeu ser impossíveis de alcançar com a oposição republicana e que, em contra-relógio para os últimos 23 meses na Casa Branca, tenta aproveitar os últimos cartuchos para concretizar o essencial do segundo mandato: uma América mais coesa socialmente, com uma classe média fortalecida pelo crescimento económico.

A proposta de orçamento que Obama apresentou ao Congresso, num total de quatro biliões de dólares («four trillion budget» na expressão em inglês), está desenhada para oferecer aos americanos uma ideia de «have-it-all»: na sequência do que defendeu a 20 de janeiro no State of The Union, o Presidente quer aproveitar a recuperação económica para colocar mais dinheiro no bolso do «americano comum».

Como? Essencialmente, pela via fiscal. Nesta proposta de orçamento vemos mais cortes fiscais para a classe média, mais despesa em programas governamentais e cortes em áreas que permitem manter o défice controlado.

Este equilíbrio paga-se, na proposta da Casa Branca, com taxas maiores para os contribuintes mais ricos e para as empresas financeiras que se dão melhor.

Tendo em conta a reação dos líderes republicanos ao Estado da União, as esperanças de que isto passe no Congresso são muito reduzidas. John Boehner, «speaker» da Câmara dos Representantes, congressista republicano do Ohio, em entrevista ao «60 Minutes» da CBS, foi claro: «Estou contra a subida do salário mínimo. Isso tira empregos, não dá empregos. Sou contra taxar os mais ricos. Não é essa a América que funciona».

Na mesma entrevista, Mitch McConnell, novo líder do Senado, republicano do Kentucky em sexto mandato, teve alguma dificuldade em rebater os bons números económicos expostos pelo Presidente no State of The Union (5,6% de desemprego, 3% de crescimento económico e três milhões de empregos criados em 2014, 11 milhões de empregos no setor privado nos últimos seis anos): «Sim, são boas notícias, mas o problema é que as políticas do Presidente não puseram a maior parte dos americanos melhor. Puseram esses tais 1% dos mais ricos que ele fala melhor».

Se parece haver acordo na ideia de que é preciso tornar real para o grosso dos americanos a melhoria económica já concretizada, o desacordo quanto à forma de o obter é total: o Presidente vai ao limite insistir na ideia da redistribuição fiscal e no aumento dos programas sociais; os republicanos querem manter-se no «mantra» de estarem contra qualquer subida de impostos.

O combate ideológico está ao rubro em Washington DC.

No plano externo, há três sinais a ter em conta nas mais recentes decisões do Presidente: ao telefonar a Alexis Tsipras no dia seguinte à vitória do Syriza, reforçando depois em entrevista que «a austeridade não fez bem à Europa» e que «não se pode continuar a apertar os países que estão numa depressão profunda».

Na frente ucraniana, deu claro sinal ao nomear Ashton Carter como novo secretário da Defesa. Ahston, que irá passar no Senado com forte apoio dos dois partidos, defende envio de armamento americano aos combatentes ucranianos, para travar o avanço dos rebeldes pró-russos.

Perante o agravar do horror das ações do Estado Islâmico (decapitação de dois japoneses e piloto jordano queimado vivo), Obama reforçou: «São atos bárbaros e hediondos. Os EUA e aliados vão destruir o Estado Islâmico». Enquanto isso, John Kerry, secretário de Estado norte-americano, elogiava a «coragem e resistência» dos combatentes curdos que provocaram derrota fundamental ao Estado Islâmico na martirizada cidade de Kobani.

Viragem à esquerda no combate político com o Congresso republicano, numa plataforma de cumprimento do que prometeu à classe média e às minorias, segmentos que lhe deram a reeleição. Posição clara no combate ao horror do «Daesh» e a à ameaça russa no Leste da Europa.

Barack Obama ainda conta e está a olhar para o relógio, para aproveitar o tempo que tem para deixar um legado.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»