Há razões para começar a duvidar da nomeação precocemente anunciada de Hillary Clinton? Acho que não.
 
Nas últimas semanas, tem-se apontado uma espécie de crise na campanha da super favorita à nomeação presidencial democrata para 2016.
 
É verdade que Hillary tem descido de forma acentuada nas sondagens. Mas isso era mais ou menos inevitável, se nos lembrarmos que ela partiu de um «teto» que, esse sim, não era nada normal.
 
As eleições presidenciais nos EUA não gostam de vencedores antecipados.
 
E o avanço que Hillary chegou a ter no início desta corrida, quando as candidaturas ainda não estavam no terreno, parecia indicar uma coroação que não permitiria um debate vivo e emocionante do lado democrata.
 
A ex-Primeira Dama chegou a ter mais de 70% nas sondagens nacionais e vantagens de 40 a 50 pontos nos estados de arranque.

Ao contrário de Bernie Sanders, senador independente com notoriedade relativamente baixa a nível nacional, o caminho, para ela, tem sido de descida e não de subida.

Mas quando se parte de 70%, talvez ainda não seja alarmante perder 20 ou 25 pontos percentuais nas sondagens – por muito que isso deva constituir motivo de preocupação para quem se ocupa da estratégia da mais do que provável primeira mulher a obter a nomeação presidencial de um grande partido nos EUA.
 
TENDÊNCIAS CONTRADITÓRIAS
 
O problema de Hillary, nesta fase da corrida, é só uma questão matemática, de alguém que começou no topo e está agora a gerir perdas mantendo grande avanço? Não.
 
O caso é um pouco mais complexo.

Se é certo que qualquer outro candidato presidencial (seja democrata ou republicano) pagava para estar na posição da ex-secretária de Estado de Obama (sim, ela continua a ser, de longe, a mais provável sucessora de Barack na Casa Branca, a partir de janeiro de 2017…), é indiscutível que a campanha Hillary passa por uma crise de confiança.
 
O crescimento da campanha de Bernie Sanders, que começou a ser mais pronunciado nas últimas semanas, foi o primeiro sinal de alarme.
 
Começou por ser encarado sem dramatismos. Mas perante sondagens que apontaram para a liderança de Bernie no New Hampshire, o campo de Hillary passou da desconfiança ao pânico, em poucos dias.
 
Sanders está a agarrar as bandeiras liberais e Clinton não tem conseguido estancar a ferida à sua esquerda.
 
E Joe Biden, identificando o clima de crise na dinâmica Hillary, lançou, ainda que não de forma assumida, o isco para uma candidatura que arriscaria partir a «herança Obama» em dois.

JOE BIDEN, SIM OU NÃO?

Já foi mais provável essa candidatura do vice-presidente.
 
Joe dá sinais de hesitação, depois de alguns dias de «buzz» sobre possível avanço. No círculo político da Casa Branca, Joe ter-se-á posicionado, no início do processo, a favor da nomeação de Hillary e ainda não se terá decidido a mudar de ideias.
 
A preferência dos apoiantes de Elizabeth Warren por Bernie Sanders também está a complicar a tese de que Biden seria a alternativa mais preparada num cenário de «apocalipse Hillary».
 
Mesmo assim, circula um «memo» pelos congressistas democratas, com uma lista de trunfos de uma possível candidatura Biden (seria a terceira tentativa, depois das campanhas falhas de 1988 e 2008).
 
Até há algumas semanas, a candidatura do vice-presidente não fazia sentido.
 
O «eixo» Obama-Clinton, que dominou quase por completo o «establishment» do Partido Democrata nas últimas duas décadas (ainda que com as 'nuances' Al Gore e John Kerry, também eles fazendo parte desse arco de poder), estava a colocar todas as fichas na «coroação» de Hillary Clinton para 2016.
 
Só que a subida de Bernie Sanders e a queda de Hillary nas sondagens começaram a pôr em causa a noção de «inevitabilidade».
 
Joe, que em 2008 não teve hipóteses de se intrometer na disputa Hillary/Obama, vai dando sinais cada vez mais fortes de que quer mesmo avançar. Terá possibilidade de ficar com parte da herança Obama, ou será que ela já está completamente destinada à sua ex-colega de administração, no primeiro mandato? 

Alguns membros do «núcleo duro Obama» parecem estar a ponderar a hipótese Biden, mas quanto ao Presidente, e apesar de relação sólida com o seu número dois, o apoio à nomeação de Hillary é mais do que claro e já foi declarado em público mais do que uma vez
 
Tudo ainda em aberto, mas já foi mais forte a tese de «Run, Joe, run»...Mas só o facto de se falar nela parece ameaçar a noção de «inevitabilidade Hillary».
 
A PRÓXIMA FASE
 
A atravessar a primeira (mas tal esperada) queda, Hillary ainda tem uma boa margem para definir que estratégia pretende para os próximos meses.
 
O foco continuará a ser na classe média e nos direitos das minorias. Ela, que quer ser a «campeã da América que trabalha», sabe que na eleição geral terá na sua quase totalidade os apoiantes que para já estão mais entusiasmados com os comícios de Bernie Sanders. 

Mais do que tentar responder aos avanços dos seus adversários no Partido Democrata, Hillary deverá manter perspetiva de «mais do que provável nomeada», apontando já as baterias à eleição geral. E, nesse âmbito, a tese dominante nos estrategas da candidata continua a ser a de um duelo com Jeb Bush -- por muito que as sondagens insistam em catapultar a «loucura Trump».

E o primeiro sinal de recuperação de Hillary terá aparecido ontem, na sondagem da Universidade Suffolk para o «caucus» do Iowa: Hillary Clinton 54, Bernie Sanders 20, Joe Biden 11, Martin O'Malley 4, Jim Webb. 1.
 
Hillary recupera, assim, avanço no Iowa e volta a ter 34 pontos de vantagem sobre Bernie Sanders e mais de 40 sobre Biden. 
 
Números destes para o primeiro estado a votos nas primárias não geram grande margem para dúvida: com mais ou menos recuos, é bastante provável que a Convenção Democrata do verão de 2016 venha a ter uma mulher investida com uma vantagem considerável.
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»