Está a ser um fim de ano de sinais contraditórios, tanto nos mercados, como no campo económico e até na frente do combate às ameaças terroristas e na gestão das (várias) crises no Médio Oriente.
 
O principal foco dos mercados e dos líderes mundiais nos últimos dias tem sido a situação preocupante da economia russa.
 
O rublo está em queda livre, o Banco Central em Moscovo avisa que «a situação é crítica», desde que 1998 que a moeda russa não caía assim tanto.
 
Poderá estar aqui o «cisne negro» que Vladimir Putin insistia em tentar disfarçar, com as movimentações militares que, nas últimas semanas, decidiu executar sobre o espaço vital da NATO.
 
Moscovo vai avançar para a venda de divisas estrangeiras para estabilizar as finanças, mas há quem tema que, no Kremlin, o poder político tente mais alguma manobra de distração e de exibição de força, enquanto a crise decorre no tesouro russo.
 
Ao mesmo tempo, e não totalmente independente disso, o petróleo continua a mostrar preços em valores tão baixos (descida de 40% nos últimos seis meses), que só têm comparação com 2009.
 
À primeira vista, petróleo baixo poderia ser uma boa notícia para «nós», consumidores de gasolina, gasóleo, transportes e uma variedade de outros produtos e serviços de alguma forma dependentes da atividade petrolífera.
 
Mas a longo prazo, não é bem assim: por um lado, há países cujas economias dependem excessivamente da exportação de petróleo e que, com preços a aproximarem-se dos 50 dólares por barril, se sentem seriamente ameaçados.
 
Por outro, o que esta queda abrupta do petróleo pode significar é o início de uma retração preocupante da atividade económica em países que supostamente deveriam estar a crescer muito mais.
 
Para já, no entanto, a descida dos preços continua a ser anunciada como boa: «Haverá vencedores e perdedores, mas a descida dos preços do petróleo é uma boa notícia», comenta Christina Lagarde, diretora do FMI.
 
Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, aponta, convicto: «É uma boa notícia, sem qualquer ambiguidade».

A verdade é que o sentimento geral de apreensão pela conjugação de sinais de alarme: Rússia em crise económico-financeira interna e tentativa de a disfarçar com exibição de músculo militar; Europa a derrapar, embora afastando para já o risco de sobrevivência da zona euro; eleições na Grécia com resultado imprevisível (hoje é dia da primeira volta das presidenciais antecipadas); Brasil, até há meses considerado futura potência económica mundial, simplesmente a parar de crescer; até a China a começar a desacelerar.

E, é claro, de novo a ameaça do grande terrorismo internacional a pairar: o ataque do «lobo solitário» iraniano na Austrália voltou a recordar-nos isso, mas sobretudo o horrível atentado de ontem em Peshawar (130 crianças mortas numa escola militar no Paquistão) voltou a lembrar-nos que os «taliban», na zona entre o Afeganistão e o Paquistão, continuam a ser séria ameaça, não apenas os radicais sunitas do Estado Islâmico (que apesar de prosseguirem a sua linha de horror com decapitações no Iraque e na Síria, têm sido travados no seu raio de ação, por força das operações aéreas da coligação liderada pelos EUA nas últimas semanas e pelos combates no terreno feitos pelos «peshmerga» curdos e pela oposição moderada síria a Assad).

No meio de tantas contradições que o plano internacional nos mostra no final de 2014, há três ou quatro ideias a reter sobre o posicionamento americano enveredado por Barack Obama nos últimos anos.

No último ano, o Presidente tem sido muito criticado pela suposta fraqueza revelada com Assad (à última hora, optou por não acionar o ataque a Damasco pós armas químicas) e com Putin (foi o presidente russo que ficou melhor na fotografia, ao aparecer com a solução de mediação que evitara a operação militar na Síria).

Mas os meses seguintes contaram-nos uma outra história: a opção de não enviar tropas para o terreno contra o Estado Islâmico, mas ser firme no seu combate e destruição, estará a revelar-se acertada. É caso para perguntar: quão maior seria o avanço do «Daesh» (nome originário do terrível grupo liderado por Abu Bakr Al-Baghdadi) se Assad tivesse caído após possível ataque americano há um ano? E que consequências na opinião pública americana e europeia já haveria se, por esta fase, tivéssemos milhares de baixas americanas, britânicas e de outras nacionalidades, na imprevisível arena de combate ao Estado Islâmico?

Quanto ao plano económico e à estratégia energética, uma parte da tal descida do petróleo terá já a ver com a menor dependência dos EUA ao exterior. A aposta no gás de xisto e na progressiva «independência energética» está a alterar os dados fundamentais. Os americanos têm (e terão cada vez mais) uma menor necessidade de recorrer a alianças com os países árabes da OPEP e isso está a ter consequências claras na política externa e nas escolhas da Administração Obama. 

A América termina 2014 a crescer consistentemente entre os 3 e os 4% a cada trimestre, e com um desemprego de 5,8% (o mais baixo dos últimos seis anos e meio) e quase metade do pico do pós crise de 2008.

2015 talvez nos ajude a catalogar de forma mais clara as tendências contraditórias que este final de ano nos está a mostrar.

Mas não será de admirar que aponte para uma América de Obama cada vez mais pragmática neste jogo de travar a ameaça terrorista com o mínimo custo humano possível e de aumentar a sua independência energética, que lhe permitirá manter a demarcação aos devaneios bélicos de Putin e aos perigos que as várias crises no Médio Oriente continuarão a revelar-nos.
  
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»