«Somos poderosos o suficiente para sermos capazes de testar os pressupostos deste acordo sem nos colocarmos em risco. E isso é algo que nem toda a gente parece entender. Vejamos o exemplo de Cuba. Testar a possibilidade de um entendimento leva a uma melhor situação para o povo cubano e não há assim tantos riscos para nós. É um país pequeno. Não nos ameaça no essencial dos nossos interesses, na nossa segurança. E se se verificar que não nos leva a grandes vantagens, podemos ajustar as nossas políticas. O mesmo acontece com o Irão, um país bem maior que Cuba, um país perigoso, que entrou em atividades que resultaram na morte de cidadãos americanos, mas a verdade é esta: o Irão tem um orçamento de defesa de 30 mil milhões de dólares. O nosso orçamento de defesa é de cerca de 600 mil milhões de dólares. O Irão sabe que não pode lutar contra nós. Sabe disso. Por isso, uma «Doutrina Obama» será: vamos procurar entendimentos, mas vamos preservar as nossas capacidades» 
BARACK OBAMA, Presidente dos Estados Unidos, entrevista a Thomas Friedman, no New York Times, após o acordo com o Irão


Nos últimos anos, já perdemos a conta das vezes que ouvimos e lemos frases como: « O Médio Oriente está em polvorosa»; «Instabilidade no Médio Oriente»; « Atentados no Médio Oriente».

O estado de «guerra permanente» passou a ser uma espécie de «novo normal».

Mas a evolução dos acontecimentos nos meses mais recentes, sobretudo depois do verão de 2014, com a ascensão galopante do Estado Islâmico, agravou essa perceção. O prolongar da guerra na Síria, a desfragmentação do Iraque e, eventualmente, também do Iémen são novas ameaças que somam a noção de caos.

O Médio Oriente, poço de conflitos crónicos (e um deles tendencialmente insolúvel, o israelo-palestiniano) -- mesmo sendo tema recorrente da agenda mediática internacional -- passou de ameaça relativa, algo «lá longe», para um caldeirão de problemas, numa escalada de instabilidade, mortos e violência.

O Estado Islâmico

O emergir do Estado Islâmico, com as suas práticas assustadoras na estratégia e bárbaras na concretização (decapitações, piloto jordano queimado vivo, ataques informáticos em larga escala, recrutamento de jovens combatentes via internet), foram o ponto de viragem.

Levaram os EUA a liderar coligação internacional, com mais de 40 países, para travar a escalada da ameaça e fizeram com que as peças do complicado xadrez da região se movessem em direções aparentemente improváveis. 

Os americanos, que desde 2008 revelaram vontade eleitoral de sair militarmente do Iraque e do Afeganistão, haviam deixado a administração do Iraque pós-Saddam a um governo eleito democraticamente, liderado pelo xiita Nouri Al-Maliki, mas frágil na capacidade de fortalecer as instituições locais.

De raiz sunita, o Estado Islâmico terá tido apoio inicial da Arábia Saudita e do Qatar, monarquias árabes que entretanto passaram a recear o crescimento inesperado e ameaçador do movimento liderado por Abu Bakr Al-Baghdadi.

Nasceu de dissidência com o «modus operandi» da Al Qaeda (progressivamente ultrapassada nos métodos e na liderança, na última década, pela eficácia do combate americano pós 9/11 na eliminação das principais figuras da organização terrorista que perpetrou o ataque às Torres Gémeas) e cresceu, com rapidez inusitada, conjugado pelo sentimento de vingança dos sunitas no Iraque (humilhados pela maioria xiita pós-Saddam) e pela noção de «ausência de poder» em vastas áreas do Iraque e da Síria.

Xiitas «vs» Sunitas; Irão e Síria «vs» Arábia Saudita

A grande divisão passou a ser, muito por culpa dos desastres do pós-guerra do Iraque 2003, entre o mundo xiita e o mundo sunita.

Ora, duas das grandes potências regionais xiitas são a Síria de Assad (ainda que devassada por quatro anos de guerra civil destruidora) e o Irão.

Um ano e meio depois de ter estado a um passo de bombardear a Síria, na sequência das suspeitas de ataque com armas químicas nos arredores de Damasco no final de agosto de 2013, os EUA veem-se não propriamente ao lado de Assad (a prioridade tem sido ajudar a oposição considerada «moderada»), mas com um inimigo comum: o Daesh (o «Estado Islâmico») sunita.

E os EUA, que há mais de três décadas têm tido no Irão um dos seus principais focos de receio na região, passaram também a ter no regime de Teerão (desde junho de 2013 com um presidente mais moderado que era Ahmadinejad, Hassan Rohani) um aliado improvável. 

Chamar «aliado» ao Irão será talvez excessivo, mas olhando para o atual enquadramento da região, percebe-se que os pontos de contato entre Washington e Teerão são mais do que se poderia imaginar.

A recente recuperação de Tikrit, cidade iraquiana onde nasceu Saddam Hussein, ao Estado Islâmico, tendo sido obtida por combatentes xiitas, teve apoio direto do Irão e foi momento chave na estratégia dos EUA para travar o avanço do ISIS na região. 

Ao mesmo tempo, e numa daquelas ironias em que o Médio Oriente é fértil, e no caos atual está a chegar ao extremo, os EUA dão apoio indireto à coligação liderada pela Arábia Saudita (com outros países árabes sunitas) no Iémen, que combatem as milícias «houthi», xiitas e apoiadas pelo Irão, pelo controlo da capital, Sana.

Isso mesmo: EUA e Irão de um lado e em campos opostos, no Iraque/Síria e no Iémen. Confusos? Bem-vindos ao Médio Oriente.

O nervosismo de Israel 

Os dados mudaram, pois, e muito,  no xadrez complexo da região. 

Se até há não muito tempo os EUA tinham na Casa Real Saudita o aliado mais sólido (com profundos negócios ligados ao petróleo a fortalecer esses laços), e viam no programa nuclear iraniano e no regime de Assad em Damasco os dois perigos mais ameaçadores, num ano e pouco, as peças moveram-se.

E ainda há, pelo meio, outro dois «players» relevantes a adicionar na equação: a Turquia, país com 99% de muçulmanos, liderada por um inimigo figadal de Assad (Erdogan); e Israel (com governo presidido pelo líder político com péssima relação pessoal e política com Barack Obama, Bibi Netanyahu).

Israel não vê com bons olhos esta aproximação EUA/Irão e não é por acaso que Obama, nas entrevistas que deu a seguir ao acordo de Lausanne, tenha repetido a estranheza por «haver quem duvide» que é bem maior a sua proximidade com Televive.

O cenário, que já era complicado, tornou-se um labirinto potencialmente interminável. E quando se entra num labirinto, nunca se sabe quando é que se consegue de lá sair. 

Obama: «Entendimento não significa risco»

É neste contexto que o acordo de Lausanne ganha ainda maior significado.

Na «tempestade perfeita» do caos do Médio Oriente, a única conjugação positiva que terá acontecido nos últimos anos foi mesma a vontade das lideranças politicas em Washington (Barack Obama) e Teerão (Rohani), apesar de alguns contrapesos de relevo nos dois lados (Senado republicano, nos EUA; o aiatola Ali Khamenei, líder religioso supremo do regime iraniano, que olha para os americanos com muito mais desconfiança do que o tendencialmente moderado Rohani, líder de cariz político).

Obama foi o principal impulsionador político do acordo obtido à mesa das negociações por Kerry, Javad Zarif e ainda os chefes da diplomacia de Rússia, China e os restantes membros dos «5+1».

Em entrevista a Thomas Friedman, no New York Times, o Presidente dos EUA deixou claro: prefere o envolvimento e a negociação ao «isolamento». E não teme que os acordos que fez com Cuba e o Irão ponham em risco a supremacia americana, que continua a sentir como evidente.

A visão do Presidente dos EUA, em traços gerais, aponta para um bom senso raro neste nível de negociação, sobretudo no Médio Oriente: aliviar sanções é obviamente bom para o Irão (houve festejos em Teerão, após o acordo de Lausanne), mas também pode trazer vantagens para outros países da região.

Por outro, há uma noção de que as restrições ao enriquecimento de urânio (mais de dois terços de atual capacidade iraniana suspensa e monitorizada por dez anos) resolve, na prática, o risco nuclear por um período largo de tempo, sendo que algumas restrições previstas têm duração até maior do que dez anos.

Kissinger e Schultz entre o elogio e a prudência

Em artigo conjunto publicado no Wall Street Journal, com o título «O acordo com o Irão e as suas consequências», os antigos secretários de Estado norte-americanos Henry Kissinger (administrações Nixon e Ford) e George Schultz (administração Reagan) apontam: «O cenário anunciado para um acordo sobre o programa nuclear iraniano tem o potencial de gerar um grande debate nacional sobre o tema. Os seus defensores exultam em relação às restrições nucleares que se impõem sobre o Irão. Os críticos questionam a capacidade de verificação dessas restrições e o seu impacto a longo prazo na estabilidade regional e mundial. O significado histórico do acordo e, na verdade, a sua sustentabilidade depende do modo como estas emoções podem ser conciliáveis».

Kissinger e Schultz identificam a dimensão histórica do que foi alcançado por Obama e Kerry, mas preferem ser cautelosos em relação ao alcance temporal do que foi conseguido. E avisam, prudentes, com uma certa preocupação pelo longo prazo: «Se o mundo cair em ainda maior turbulência, os Estados Unidos terão que desenvolver uma doutrina estratégica para a região. A estabilidade implica um papel ativo dos americanos. Para o Irão ser um membro válido da comunidade internacional, o pré-requisito é que aceite ser restringido nas suas capacidades desestabilizar o Médio Oriente e desafiar o ordem internacional».

«Até que seja atingido um conceito político claro na estratégia americana», observam Kissinger e Schultz, «o acordo nuclear projetado vai reforçar, mas não resolver, os grandes desafios na região. Mais do que garantir um certo alívio das responsabilidades americanas no Médio Oriente, a contenção nuclear deverá necessitar de ainda maior envolvimento na região -- e novos termos complexos. A História não fará o nosso trabalho por nós. Apenas ajuda aqueles que procuram ser ajudados».

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»