Um acordo aplaudido por quase todo o Mundo, com duas exceções muito claras: Israel e a oposição republicana a Obama nos EUA.
 
O «Iran Deal», alcançado em Viena na passada terça, só foi possível graças à vontade política de Barack Obama e Hassan Rouhani (com riscos muito concretos para os presidentes dos EUA e Irão nas opiniões públicas internas dos respetivos países).
 
Obama não teve medo dos fortíssimos interesses pró-Israel na política e na sociedade norte-americana. Rouhani não receou as fortíssimas resistências anti-americanas no regime iraniano.
 
Ambos mostraram algo que tem faltado no processo europeu e neste lamentável episódio grego: liderança e visão estratégica.
 
E, é claro, só foi possível graças à empatia pessoal que se gerou nos últimos meses (aprimorada em Lausanne durante semanas e concretizada na maratona de 18 dias em Viena) entre os chefes da diplomacia americana e iraniana, John Kerry e Javad Zarif, dois políticos experientes, dois homens do Mundo e com mundo, duas formas próprias de serem tolerantes e abertos ao compromisso.
 
Como muito bem notou Bernardo Pires de Lima, na noite do referendo grego, em comentário no «Visão Global» da Antena 1,  «é incrível como a relação entre Kerry e Zarif seja muito mais empática do que a dos ministros europeus. E o dossiê nuclear iraniano mexe com temas ainda mais sensíveis do que a questão grega e a crise europeia».
 

Zarif não tem dúvidas: «O Mundo mudou. Este foi um avanço importante perante a ameaça e a coerção. E há vários «primeiros» neste acordo: o Irão foi o primeiro país a ver reconhecido pelo Conselho de Segurança da ONU o seu programa de urânio enriquecido, depois do mesmo conselho ter insistido durante oito anos para que abandonássemos o programa».


 
Israel está contra...
 
Netanyahu já veio dizer que se tratou de um «erro histórico». Mas a História, muito provavelmente, dará razão a Obama e Rouhani e mostrará que o chefe do governo de Telavive está enganado.
 
«Infelizmente, eles precisam de crises e de guerras para continuarem a esconder as suas políticas desumanas contra os povos do Líbano, Palestina e outros na região. Por isso, um acordo que promove a paz não lhes interessa», comenta o ministro iraniano Javad Zarif, citado pela Reuters.
 
Federica Mogherini, responsável pela política externa da UE, destacou a «coragem» dos negociadores. Javad Zarif sublinhou o «momento histórico, mas ainda não perfeito» (receando o que se possa passar, nas próximas semanas, no Congresso americano). Obama acabou de destacar a dimensão deste acordo, apelando à ratificação clara do que foi alcançado.
 
«Isto mostra que a nossa força aumenta quando estamos juntos, não quando nos isolamos», apontou o Presidente dos EUA. E garantiu:  «Este acordo não se baseia em confiança: baseia-se em verificação».
 
«Este acordo oferece-nos uma oportunidade de avançar. Devemos aproveitá-lo», exortou Obama.

Mesmo assim, Obama sabe que terá forte oposição no Congresso. Vários líderes republicanos já se mostraram contra e mesmo na bancada democrata não será fácil obter consenso.

O Presidente espera obter «o maior apoio possível» do Congresso, mas deixou já claro que não está na disposição de deixar cair o que foi aprovado em Viena. Donde, se o Capitólio disser 'não', o Presidente vetará esse não e manterá o que foi assinado na capital austríaca.



Mesmo com algumas dúvidas, os democratas devem votar 'sim'. Dianne Feinstein, senadora da Califórnia, líder do comité de investigação e inteligência do Senado, aponta: «Este acordo aumenta a segurança nacional e promove laços diplomáticos com países com quem temos tido problemas nos últimos anos. Foi um esforço notável do Presidente e do secretário Kerry».
 
O acordo com o Irão garante que o programa nuclear será feito para fins pacíficos e compreende a diferença entre «bomba atómica» e «energia atómica».
 
Nos 18 dias anteriores ao acordo final, Kerry e Zarif dormiram muito pouco.
 
Mas valeu a pena – os ministros americano e iraniano provaram que continua a valer a pena apostar em negociações e na diplomacia, dando um bom desfecho a um processo de dois anos, com avanços surpreendentes e alguns recuos, mas que só foi possível de arrancar graças a dois acontecimentos eleitorais improváveis: a reeleição de Obama em novembro de 2012 e, sobretudo, a eleição do moderado Rohani em Teerão, em junho de 2013.
 
A ameaça crescente do Estado Islâmico tornou EUA e Irão aliados improváveis perante inimigo comum. Jonathan Karl, jornalista da ABC News, perguntou a Obama se «fica tranquilo» ao ver Bashar Al-Assad, na Síria, a considerar que «este acordo foi uma grande vitória para o Irão».
 
Por muito estranho que isso parecer, a verdade é que este foi mais um momento de aproximação de interesses entre Washington, Damasco e Teerão, sempre com a ameaça do ISIS em pano de fundo.
 
O endurecimento da posição israelita afastou Obama de Netanyahu e isso, curiosa ironia da política e da diplomacia, permitiu também que os iranianos passassem a olhar o Presidente dos EUA com mais confiança e admiração.
 
A política é feita de escolhas. Barack Obama e Hassan Rouhani fizeram-nas e colheram os frutos com este acordo improvável e histórico.
 
Sabendo que este acordo iria provocar forte resistência em Telavive, e já depois de Netanyahu falar em «capitulação» da posição americana em relação ao Irão, Obama ligou ao líder do governo israelita e deixou uma garantia: «Ao primeiro desrespeito dos iranianos, as sanções são imediatamente repostas».
 
Para Obama, este acordo tem duas vantagens inatacáveis: retira, num prazo considerável, a capacidade dos iranianos produzirem armas nucleares, mas retoma a capacidade da economia e da sociedade iraniana de recuperarem e florescerem, depois da depressão dos últimos anos, criada pelas sanções.
 
... os republicanos também
 
A vontade política de Obama de chegar a um acordo com Teerão, de modo a travar o programa nuclear iraniano, custou ao Presidente ser quase desrespeitado por um grupo de senadores republicanos com escassa visão do Mundo e que se consideraram mais representados pelo primeiro-ministro israelita do que pelo próprio Presidente dos EUA.
 
O ponto mais crítico dessa divergência foi a carta assinada em março passado por um grupo de mais de quatro dezenas de senadores, liderados pelo republicano Tom Cotton, do Arkansas, quando da presença de Netanyahu wm Washington (com o primeiro-ministr o a comparar, em pleno Capitólio, o regime do Irão ao Estado Islâmico), Na altura, Obama demarcou-se da visita de Netanyahu e a visão de Washington e Telavive sobre um acordo com o Irão tornou-se inconciliável.

Os candidatos às primárias republicanas rejeitam em absoluto que Viena tenha sido vitória americana: Jeb Bush falou em «acordo perigoso e vistas curtas»; Rick Perry acusou Obama de ser «um tipo muito ingénuo, incapaz de ligar os pontos»; Chris Christie disse que este acordo é «a maior mentira do segundo mandato de Obama».
  
Rússia e China envolvidas
 
Mas, na hora da verdade, depois do que saiu de Viena, fica claro quem tinha razão. E reafirmou a ideia da liderança americana no plano internacional, com o envolvimento dos 5+1: Rússia, China, Reino Unido, França, Alemanha, mais a União Europeia.
 
Isso mesmo: a Rússia de Putin, adversária e inimiga potencial em questões como a Ucrânia, assinou este acordo e fez parte direta dele.
 
Consequências imediatas para o «Iran Nuclear Deal»: baixa dos preços do petróleo, com o aumento da posição de Teerão; reforço da cooperação EUA/Irão na luta contra o ISIS; levantamento das sanções que gerava fortes problemas económicos à população iraniana; garantia de que, na próxima década e meia, o Irão não fabricará uma bomba atómica, a troco do reconhecimento da legitimidade do seu programa de urânio enriquecido como sendo para fins pacíficos..
 
Não é coisa pouca.
 
Pode ser que ainda haja quem considere que Barack Obama é  «um líder fraco, com retórica oca e que como presidente não conseguiu grande coisa».
 
Mas perante mais este avanço histórico (que se junta à Reforma da Saúde, à recuperação económica, ao acordo ambiental com a China e aos acordos comerciais com Pacífico e Europa, às medidas pela Imigração, Equal Marriage, Equal Pay, subida do salário mínimo e aumento do valor das horas extra ou o alargamento do acesso à net em todo o território americano), talvez isso aconteça apenas por distração ou desconhecimento.
  
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»