Enquanto do lado republicano começa finalmente a verificar-se o esvaziamento de Donald Trump (ainda à frente a nível nacional, mas a perder gás e já a ceder a liderança em alguns estados), a corrida democrata caiu numa espécie de impasse.
 
Hillary Clinton continua em apuros com as ondas de choque do «mailgate» e com um certo esgotamento da sua imagem.
 
A super favorita tem vindo a perder muitos pontos nas sondagens, nos últimos meses, mas começou tão em cima que ainda se aguenta como líder clara nas sondagens nacionais e em quase todos os estados.

Os estrategas de Hillary têm tentado minimizar danos: puseram a candidata a somar desculpas sobre os erros de procedimento nos emails enquanto secretária de Estado e estão à espera que o momento negativo simplesmente passe, mantendo o plano de atacar já a eleição geral, com Jeb Bush como possível adversário republicano daqui a um ano. 

Estratégia inteligente ou... pouco humilde?
 
O momento ainda é de Bernie

Bernie Sanders, a grande surpresa do lado democrata, é cada vez mais líder no New Hampshire, estado onde tem criado uma grande onda de entusiasmo, com comícios muito participados e energizados.
 
O «campeão do progressismo americano» tem conseguido passar uma mensagem mais forte e clara na crítica ao «business as usual» e aos vícios do sistema financeiro, numa plataforma que em alguns aspetos faz lembrar a campanha de Barack Obama nas primárias de 2007/08, embora posicionado de forma mais marginal em relação ao «mainstream».


 
Ou seja: enquanto Obama em 2007/08 criticava o sistema mas queria conquistá-lo para o melhorar (o que viria mesmo a suceder), o senador independente do Vermont coloca-se fora dele e consegue, com isso, lançar críticas ainda mais violentas e eficazes.
 
Traz votos, energia e apoios, sim, mas está muito longe de ser suficiente para obter a nomeação. 

Hillary Clinton, que em temas como as alterações climáticas, a reforma fiscal e os apoios à classe média tem agenda tão à esquerda como Bernie Sanders, não consegue descolar-se da imagem de ser, há décadas, uma das «caras do establishment» e do poder de Washington, sendo atirada por Bernie como uma das responsáveis pela influência que «Wall Street continua a ter» sobre o poder político.
 
Joe adia e adia e adia...

Hillary ainda lidera, mas sofre; Bernie aproveita e sobe. Mas Joe Biden, em vez de se decidir... adia.

O vice-presidente vai fazendo saber que ainda não chegou ao ponto de ter a certeza do que fazer («he's not there yet», lançou um assessor próximo de Joe, ao «Politico.com»).

Sem a garantia de que terá apoio de Barack Obama, de quem foi número dois na Casa Branca nestes oito anos, Joe Biden parece temer vir a ser acusado de dividir o campo democrata. Hillary, para já, continua como herdeira política dos anos Obama -- e talvez só num cenário de «hecatombe Clinton» (ainda não estamos aí) -- assistiremos a uma decisão de Joe avançar.



Ainda sem Biden na corrida, mas já com as sondagens a contar com ele, o cenário é este: Hillary à frente nas sondagens nacionais, com média de 40.8%, para 27.6 de Bernie Sanders e 20% de Joe Biden; Sanders lidera no New Hampshire (43.4%, para 31.8% de Hillary e 13.2% de Biden), mas Hillary aguenta-se no Iowa (38.5%, para 333% de Sanders e 14.8% de Joe Biden).

Faltam quatro meses para o arranque das votações. E continuaria a ser uma enorme surpresa de Hillary Clinton não viesse a ser a nomeada presidencial democrata para 2016. Mas na política americana nunca se sabe.

 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»