«Não estou a sugerir que devam gostar o que Larry Flint faz. Eu não gosto do que Larry Flint faz, mas o que eu gosto mesmo é de viver num país que permita que eu e vocês possamos tomar as decisões que entendermos»
Alan Isaacman, advogado de Larry Flint representado por Edward Norton no filme «O Povo Contra Larry Flint», dirigindo-se aos juízes do Supremo Tribunal dos EUA (1996)   

 
Uma semana depois do massacre que vitimou 12 jornalistas do «Charlie Hebdo» (e provocou um total de 20 mortos, no somatório de acontecimentos gerados a partir daí, nas 53 horas que se seguiram), o sentimento de insegurança aumentou em solo europeu e ficámos todos a perceber, de forma ainda mais clara, que o terrorismo pode mesmo tocar à porta, a qualquer momento, em qualquer lugar.
 
Muito menos amplo no número de vítimas do que foi o 11 de Setembro de 2001 na América, o 7 de janeiro de 2015 foi, no entanto, o «11 de Setembro» europeu.
 
Apesar da maior dimensão de 11 de março de 2004 em Madrid, e da maior complexidade do que foi preparado a 7 de julho de 2005 em Londres, a verdade é que os atentados de Paris tiveram um poder simbólico muito maior.
 
Por atingir o coração da identidade europeia e ocidental (a liberdade de expressão e a imprensa livre). Por matar, de forma objetiva e direcionada, setores específicos da sociedade: os jornalistas; os polícias; os judeus.
 
Ainda que, em número, não tenha sido o pior atentado dos últimos anos em solo europeu, no seu significado e no poder atemorizador exalado pelas imagens exibidas, foi, sem dúvida, o acontecimento mais relevante desde o 11 de Setembro de 2001, em matéria de terrorismo internacional.

Entre o terror das imagens de violência fria e gratuita, e o medo do que ainda pode estar para vir, há heróis improváveis que sobrevêm: Ahmed, ironicamente um policia muçulmano morto a sangue frio por defender a lei francesa e o estado de Direito, por terroristas que juravam defender o mesmo Deus; Lansana, muçulmano que escondeu sete judeus enquanto Coulibaly sitiava o supermercado em Paris.

O «choque» não é, como se vê, religioso ou de «civilizações».
 
A eterna questão da perspetiva
 
Comecei esta crónica com uma citação do filme «O Povo Contra Larry Flint», que já tem quase duas décadas, por considerar que no argumento persuasivo do advogado do provocador proprietário da revista erótica «Hustler» está o essencial da discussão que se gerou nos dias seguintes ao massacre de Paris.
 
Pessoalmente, não sou grande fã das caricaturas do «Charlie Hebdo». São demasiado gráficas, demasiado agressivas, repetem-se na agressão. Prefiro um humor mais subtil e que atinja o ponto de forma menos óbvia.
 
Mas isso são gostos. E o ponto é mesmo esse. Nas sociedades em que vivemos, ninguém deverá ter a resposta certa para a tal questão do «gosto».
 
Quem se sentir agredido nos seus direitos por aquilo que foi publicado poderá, então, recorrer aos tribunais. Há direitos e procedimentos previstos. É tudo.
 
Acharmos que, depois do que aconteceu, se deve passar a ter mais «cuidado» com o que se escreve, desenha e publica é, sem nos apercebermos totalmente disso, entrarmos no jogo do medo e da chantagem. E as sociedades ocidentais não podem correr esse risco.
 
Houve muitos aspetos positivos no que aconteceu a seguir ao massacre de Paris: uma pulsão coletiva de «defender a liberdade de expressão» (terá sido isso o movimento #jesuischarlie); a preocupação, muito ampla em diversos setores das sociedades europeias, de separar os «radicais islâmicos» da imensa maioria de muçulmanos moderados, que querem participar livremente nas sociedades em que escolheram para viver.

Os cinco milhões de exemplares impressos para a edição 1178 do «Charlie Hebdo», saída esta quarta feira, ficará, certamente, na história da Imprensa.
 
O que a marcha de Paris nos disse
 
A diversidade de líderes internacionais que se juntaram na marcha de Paris de domingo passado deu conta da importância do momento.
 
Hollande fez bem em promovê-la e terá decidido bem em isolar Marine Le Pen (que prontamente tentou cavalgar a onda de medo, agitando a bandeira do regresso à pena de morte e propondo o fecho de fronteiras, ideia que não se compreende como possa responder ao que se passou, na medida em que os autores dos atentados tinham a nacionalidade francesa…)
 
Juntar quase quatro milhões de pessoas nas ruas de França é algo que se coloca no lote das maiores manifestações populares da história moderna.
 
Mas sabemos que, nestas alturas, há imagens que podem enganar (e aquela foto dos líderes políticos separados por vários metros do resto dos manifestantes, por razões de segurança, é um belo exemplo disso).
 
Ver Erdogan, o presidente turco, a jurar que também ele «é Charlie», ou ver representantes da Arábia Saudita ou do Catar (países que tiveram influência no financiamento do Estado Islâmico, numa primeira fase pelo menos), causa, no mínimo, perplexidade.
 
O mistério da ausência da Casa Branca
 
O que terá levado a Administração Obama a «faltar» ao acontecimento de Paris?
 
É certo que os Estados Unidos estavam oficialmente representados através da embaixadora americana em Paris, Jane Hartley.
 
Mas isso é pouco perante o desfilar de líderes de topo que a manifestação na capital francesa, ocorrida no passado domingo, proporcionou.
 
Terão sido razões de segurança que levaram à decisão de não colocar nesse momento Barack Obama? Não podendo o Presidente estar em Paris, não deveria ter enviado Joe Biden? Não é para isso que servem os vice-presidentes dos EUA? Ou, pelo menos, o secretário de Estado John Kerry, que até teve reação em francês logo a seguir aos ataques, em ato que, na altura, caiu bem no Eliseu?
 
As dúvidas permanecem sobre o que se passou, realmente, no processo de decisão da Casa Branca em relação à manifestação de Paris.
 
Perante a chuva de críticas, Josh Earnest, porta-voz da Administração Obama, admitiu em conferência de Imprensa que «devia ter sido enviado alguém de topo para essa manifestação» e que «algo falhou». Mas isso pode já ter sido uma «gestão de danos», posterior à verdadeira razão.
 
A verdade é que os EUA, como país liderante da coligação internacional que assumiu a batalha contra o Estado Islâmico, tem interesse direto na reação ao que aconteceu em Paris.
 
Os irmãos Kouachi, autores do massacre ao Charlie Hebdo, teriam ligações à Al Qaeda do Iémen e o franco-maliano Coulibaly deixou vídeo póstumo em que se diz ligado ao Estado Islâmico.
 
Pela mesma altura, o «Daesh» (nome árabe do Estado Islâmico) conseguiu, durante meia hora, violar o sistema informático do US Central Command: não na sua raíz, mas através do twitter e do YouTube, proclamando um suposto «cibercalifado». Foi mais uma ação simbólica que outra coisa (o Centcom veio logo garantir que não houve acesso a domcumentos que pudessem comprometer a segurança dos EUA), mas foi mais uma prova de que uma boa parte do «jiadismo sunita» se faz também no ciberespaço.

O tema, e a ameaça, mercerá, de resto, uma referência significativa no próximo discurso sobre o Estado da União, que o Presidente Obama vai proferir a 20 de janeiro.

A «luta» (desta vez contra o terrorismo) continuará: nas ruas, nos corredores de poder, na vigilância e no espaço virtual. O problema é que ninguém sabe até quando.

Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»