Maio foi um péssimo mês no combate ao Estado Islâmico.

As tomadas de Ramadi, no Iraque (a 100 quilómetros da capital, Bagdade) e sobretudo de Palmira (cidade síria com dimensão reduzida, mas enorme valor histórico e estratégico) voltaram a mostrar que o grupo jiadista sunita tem uma capacidade de adaptação surpreendente.

Até ao final de abril, começava a discutir-se nos meios políticos e militares em Washington que passo seguinte deveria ser feito no estratégia de combate ao ISIS, em cenário de iminente recuo do inimigo.

Não era apenas um «wishful thinking» (embora talvez tivesse um pouco disso, também) -- era a consequência de vários acontecimentos positivos nos meses anteriores.

Tikrit foi batalha ganha pelas forças iraquianas (com ajuda de milícias xiistas pró-iranianas e dos bombardeamentos da coligação liderada pelos EUA); Erbil, a capital do Curdistão, deixara de poder estar nas mãos dos jiadistas sunitas e, nas palavras do presidente curdo, Masoud Barzani, em recente entrevista ao Expresso, «o Curdistão conseguiu recuperar 95% do território perdido para o Estado Islâmico», ainda que «o Daesh continue a ser uma ameaça, enquanto estiver em Mossul».

E antes de Tikrit e Erbil tinha havido Kobani, cidade fronteiriça entre a Síria e Turquia, batalha que dominou a frente de guerra no final de 2014.

A passagem para mãos do EI chegou a parecer inevitável, mas depois de intensos combates, os «peshmerga» (combatentes) curdos retomaram o controlo da cidade.

A somar a estas perdas importantes para o Estado Islâmico, os últimos meses causaram baixas significativas nas lideranças do perigoso movimento: Abdul Rahman Mohammed, tido como número dois do EI, foi morto há semanas por drone da coligação; Abu Sayyaf, «ministro do Petróleo», o homem das finanças do EI, foi eliminado na Síria, em operação altamente sofisticada da Força Delta, envolvendo comandos americanos a atuar no terreno.

O próprio Abu Bakr Al-Baghdadi, autoproclamado «califa», esteve desaparecido por várias semanas e, perante rumores de que teria sido morto num dos bombardeamentos da coligação, o EI sentiu-se na necessidade de divulgar, no início de maio, uma gravação áudio com a voz do seu líder.
 
Primeiro Ramadi, depois Palmira
 
Mas quando o «monstro» jiadista parecia estar a perder força, eis que o EI volta a mostrar que consegue, de forma rápida e surpreendente, aproveitar as oportunidades que o terreno lhe propicia.

Primeiro, foi Ramadi: cidade iraquiana já próxima da capital (a 100 quilómetros de Bagdad), passou de controlo do exército iraquiano para o controlo do ISIS, após operação violentíssima, em que o Estado Islâmico aproveitou tempestade de areia para apanhar o inimigo de surpresa.

Depois, Palmira: na primeira tomada de cidade síria por parte do Estado Islâmico, na sequência de luta direta com as tropas de Assad, o EI apropriou-se de local histórico, com património arqueológico valiosíssimo, e que agora corre o risco de ser vendido em peças para o tráfico internacional, de modo a enriquecer os cofres do grupo jiadista.

Em ambos os casos, as atrocidades cometidas pelos combatentes sunitas não se fizeram esperar.
 
Recuo tático, admite Obama
 
Foi um «recuo táctico», admite Obama, em entrevista a Jeffrey Goldberg, na Atlantic, reforçando a linha de comunicação americana sobre o que aconteceu em Ramadi.

O Presidente dos EUA recusa a ideia de mudança dramática da situação («não vamos alterar a nossa estratégia por causa disto»), deixando assim implícita a ideia de que nem sequer lhe passa pela cabeça um envio maciço de tropas americanas para o terreno.

Até porque a dimensão territorial controlada pelo inimigo não o permitiria. «ISIS is over extended» (o Estado Islâmico está sobredimensionado»), acha-se na Casa Branca e no Pentágono.

Com Palmira, o Estado Islâmico passa a controlar (ainda não ocupa, mas controla) metade da Síria. Com Ramadi (mantendo Falluja e Mossul), reforça posições na província de Anbar, no Iraque.

O crescimento excessivo do EI no terreno pode ser, a longo prazo, uma fragilidade de um grupo que ainda não é tão poderoso assim a nível militar -- é essa a linha de pensamento que Obama continua a seguir, embora ela não seja consensual em Washington.

«Não estávamos à espera de nada disto. Fomos apanhados de surpresa», deixa escapar fonte do Pentágono, ao «New York Times». «Não imaginávamos que eles, nesta fase, tivessem capacidade para fazer isto. Tomar uma cidade no Iraque e, dias depois, outra na Síria», acrescentou a mesma fonte.

O fator surpresa, já se sabe, tem um peso enorme em qualquer guerra. Numa luta tão híbrida e tão indefinida nos meios e no espaço como é este combate ao terrorismo jiadista, a importância de não se deixar apanhar de surpresa é ainda maior.  
 
Bagdade tem que ajudar mais
 
E agora?

Bom, a luta continuará e, na verdade, ela prossegue diariamente, no Iraque e na Síria, com bombardeamentos da coligação EUA/monarquias árabes da região, contra posições militares e económicas do EI.

Mas depois de Ramadi e Palmira, muito terá que mudar.

No Iraque, é pedido/exigido pela Administração Obama um «maior envolvimento» das forças iraquianas (que voltaram a dar conta de fraqueza perante a maior eficácia dos combatentes jiadistas). «Notou-se na batalha de Ramadi uma falta de vontade das tropas iraquianas em combater devidamente o ISIS», acusou Ashton Carter, secretário da Defesa norte-americano.

A reconquista de Ramadi já está em marcha, mas terá que ser resolvida, no terreno, pelos soldados iraquianos. 

Na Síria, Assad está sob pressão crescente. Não controla grande parte do território do seu país, tem no Estado Islâmico ameaça cada vez mais assustadora e, ao contrário do que se passa no Iraque, não conta com a ajuda indireta da aviação americana.

Até quando?
 
Germano Almeida é jornalista do Maisfutebol, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição» e do blogue «Casa Branca»